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  Título
IMAGEM SADEANA: ARTE, CINEMA E TRANSGRESSÃO
Autor
Edson Burg
Resumo Expandido
O artigo dá continuidade à pesquisa desenvolvida na dissertação de mestrado Uivos em favor de uma imagem sadeana (UFSC). Em A felicidade libertina, Eliane Robert Moraes dita a trajetória do Marquês de Sade: maldito no século XVIII, clandestino no século XIX e divino no século XX. Para o século XXI, percebo a urgência em se retomar o pensamento sadeano como ataque a moral que interfere na literatura e no cinema, provocando a morte da arte. A imagem sadeana foge de um regime mimético: se Sade buscara tripudiar o projeto iluminista pós-Revolução Francesa, cabe-nos agora perceber espólios dessa investida no cinema, para além da controvérsia e de todo o nível de representação estabelecido.

Klossowski descreve que a repetição do ato como se fosse a primeira vez mantém a promessa do gozo, aniquila a consciência, e Sade “pretendeu transgredir o próprio ato do ultraje por um estado permanente de movimento perpétuo” (1985, p. 37). Como analisa Agamben em “O cinema de Guy Debord”, a repetição e o corte são condições de possibilidade do cinema, dizem respeito às tarefas de criação e descriação. Portanto, se o ato transgressor se caracteriza pela recuperação incessante do possível, Sade é cinematográfico.

Mas, ao fazer uso da linguagem logicamente estruturada (a escrita), o próprio Sade expunha as limitações do êxtase pela linguagem – a representação não seria a experiência em si. Sade faz da escrita o modo de atualização do ato aberrante, o que leva à imagem-cristal de Deleuze, a presença do tempo em seu estado bruto e sem a inércia do esquema sensório-motor predominante no cinema clássico. A atualização constante do ato aberrante faz emergir a relação entre o virtual o atual, o passado que se conserva e se atualiza, premissa para a formação da imagem-cristal, que revela uma imagem-tempo direta e onde faz passar o presente e conservar o passado.

Da mesma forma, ao reproduzir o ato aberrante devido à impossibilidade de representá-lo, Sade impõe uma verdade, violenta. Para Nancy, violência e imagem só existem quando são “mostradas”. Assim, impõe-se violentamente, para nada além delas – a arte, como produtora de imagens, remete para um sem fundo, uma violência que nunca chega.

Evidentemente, tal encadeamento não se trata de uma catalogação, mas sim a definição de elementos inerentes à imagem sadeana. É preciso compreender se esta imagem se dá a partir da escrita sadeana ou de um cinema que faz referência a Sade, e como reconhecê-la em filmes de variados projetos estéticos.

Um desses projetos é o cinema produzido pelo cineasta Jesus Franco. Nascido em Madri, dirigiu 197 filmes, tendo Sade como objeto de interesse pessoal – somente da saga de Eugénie, a protagonista de A filosofia na alcova, foram quatro adaptações. A relação entre ambos vai muito além da admiração do cineasta: enquanto o marquês teve boa parte de seus escritos cerceada, Franco teve de sair da Espanha durante a ditadura Franquista. Mesmo assim, tiveram uma intensa produção e são constantemente renegados: o texto de Sade é considerado moroso, enquanto o cinema de Franco é criticado por sua pobreza técnica. A insuportabilidade com que são vistos também os aproxima.

Sade e Franco, cada qual ao seu modo, confrontam a moral com a recuperação do estado dionisíaco ressaltado por Nietzsche, em especial no culto às figuras femininas de traços e curvas leves. Figuras também frequentes nas pinturas do Renascimento, como analisou Aby Warburg, para quem a presença de mulheres jovens e belas faz alusão às ninfas da literatura antiga de Ovídio e Lucrécio, sintoma da retomada de características da arte e da literatura pagã dos séculos XV e XVI por artistas como Botticelli e Ghirlandaio, denominada por ele como Nachleben, a vida póstuma da antiguidade.

Desta forma, a pesquisa objetiva definir a imagem sadeana como aquela onde há um retorno à antiguidade antiga, ao estado dionisíaco descrito por Nietzsche, reencontrado como Nachleben em Warburg no Renascimento e retomado pelo cinema de Franco.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. O cinema de Guy Debord (conferência em Genebra, 1995). Tradução (do francês) de Antônio Carlos Santos.

_______________. Ninfas. Tradução de Renato Ambrosio. São Paulo: Hedra, 2012.

DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. Tradução de Stella Senra. São Paulo: Brasiliense, 1985.

_______________. A imagem-tempo. Tradução de Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2007.

KLOSSOWSKI, Pierre. Sade, meu próximo. Tradução de Armando Ribeiro. Brasília: Brasiliense, 1985.

MORAES, Eliane Robert. Sade: a felicidade libertina. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

NANCY, Jean-Luc. The ground of the image. Tradução (do francês) de Jeff Fort. New York: Fordham University, 2005, p. 15-26.

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SADE, Marquês de. Oeuvres completes. Paris, Jean-Jacques Pauvert, 1988.

WARBURG, Aby. A renovação da antiguidade pagã. Tradução de Markus Hediger. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.