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  Título
Historiografia audiovisual do cinema no Brasil
Autor
Luís Alberto Rocha Melo
Resumo Expandido
A partir da segunda metade dos anos 1950 foram diversas as transformações ocorridas no conjunto da produção historiográfica sobre o cinema no Brasil. Curiosamente, ao longo de todo esse período, não se atentou para um importante objeto de análise do discurso historiográfico, qual seja, os próprios filmes realizados sobre a atividade cinematográfica brasileira. Não obstante, desde os primeiros anos do cinema sonoro no Brasil (anos 1920-30) até a contemporaneidade, foram realizados inúmeros filmes e vídeos, documentais ou ficcionais, de curta, média e longa metragem que se preocuparam em refletir sobre a história do cinema brasileiro, constituindo um amplo e complexo discurso historiográfico que até hoje não foi devidamente examinado em profundidade. É esse objeto de estudo que o grupo de pesquisa Historiografia Audiovisual, recentemente criado no âmbito do Curso de Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens da UFJF busca investigar.



A metodologia desta proposta inclui o levantamento e a análise – a médio e a longo prazo – da produção de filmes brasileiros documentais e ficcionais, de curta, média e longa-metragem, realizados em suportes analógico e/ou digital para circulação em cinema, vídeo e televisão, que apresentem como tema e objeto de reflexão a atividade cinematográfica no Brasil, segundo perspectivas historiográficas e/ou ensaísticas. Consideramos, assim, filmes e vídeos que abordem o cinema brasileiro a partir de múltiplas perspectivas, desde o panorama cronológico mais tradicional até as biografias de cineastas, técnicos e atores, passando por recortes mais específicos, como movimentos, filmografias, gêneros e estilos.



A atenção dada a filmes como objetos de estudo e fontes de reflexão historiográfica sobre o cinema brasileiro já é uma preocupação presente em textos dos anos 1970 escritos por Jean-Claude Bernardet, como “Cantando no sol”, crítica do filme "Assim era a Atlântida" (Carlos Manga, 1975). Em "Historiografia clássica do cinema brasileiro" (1996), Bernardet indica que a atenção aos textos e aos filmes podem resultar no enriquecimento da análise. Da mesma forma, em sua tese "O pensamento industrial cinematográfico brasileiro", recentemente publicada, o pesquisador e professor da Universidade Federal de São Carlos Arthur Autran ressalta a escolha de suas fontes levando em consideração a significação histórica e ideológica dos filmes.



Em um sentido mais amplo e diverso do estudo aqui proposto, vale ressaltar as discussões que desde os anos 1980 vêm se complexificando no meio acadêmico sobre as relações entre Cinema e História. Já existe um número considerável de textos e livros sobre o assunto, desde reflexões pioneiras como os de Mônica Almeida Kornis até publicações mais recentes em torno do tema, dentre as quais destacamos textos como os de Sheila Schvarzman (“História e historiografia do cinema brasileiro: objetos do historiador”) e livros como "História e cinema: dimensões históricas do audiovisual" (CAPELATO, 2007).



Fora do âmbito da academia, a própria produção dos filmes e vídeos sobre o cinema brasileiro constitui-se no material privilegiado da formação desse discurso historiográfico audiovisual. Nesse sentido, mesmo a categoria de “historiadores pioneiros” deixa de obedecer a uma lógica estritamente ligada à literatura sobre cinema no Brasil, compreendendo a filmografia de alguns documentaristas como Jurandyr Noronha, por exemplo, que em 1969 realizou o longa "Panorama do cinema brasileiro", sob os auspícios do Instituto Nacional do Cinema.



Interrogamo-nos, portanto, sobre a dimensão historiográfica da produção audiovisual que tem como tema o universo cinematográfico brasileiro na constituição de novos discursos históricos sobre o cinema no Brasil. Nossa hipótese é a de que esses filmes e vídeos oferecem ao historiador de cinema novas perspectivas de reflexão, análise e construção de textos historiográficos sobre o cinema no Brasil.

Bibliografia

ALLEN, Robert C. & GOMERY, Douglas. Teoría e práctica de la historia del cine. Barcelona: Paidós, 1996.

AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.

BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história (segunda edição revista e ampliada). São Paulo: Cia. de Bolso, 2009.

_______________________. Historiografia clássica do cinema brasileiro. São Paulo: Annablume, 1995.

CAPELATO, Maria Helena et alli (Orgs.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. São Paulo: Alameda, 2007.

LAGNY, Michèle. Cine e historia: problemas y métodos en la investigación cinematográfica. Barcelona: Bosch Casa Editorial, 1997.

SCHVARZMAN, Sheila. “História e historiografia do cinema brasileiro: objetos do historiador”. Especiaria - Cadernos de Ciências Humanas. Ilhéus: UESC, Vol 10., nº 17, 2007, p. 15-40.

VIANY, Alex. O processo do cinema novo. AVELLAR, José Carlos. (org.). Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.