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  Título
A Crise do Desejo: modulações da morte no cinema de Gus Van Sant
Autor
Henrique Codato
Resumo Expandido
Parece-nos correto afirmar que determinadas produções do cinema contemporâneo potencializam/tensionam certas características do cinema moderno, tais como o descentramento do olhar, a não-linearidade da narrativa, a hibridização de linguagens e de dispositivos, a adoção de novas dinâmicas espaciotemporais e representacionais. Essas estratégias, entre outras, evidenciam uma intensa liberdade no que tange à construção da mise en scène do filme, à sua escritura, por assim dizer, propondo um novo tipo de experiência espectatorial. Denominadas Narrativas Modulares (CAMERON, 2008), essas obras cujas estruturas mostram-se bastante singulares e complexas, apresentam relações muito mais intricadas entre o tempo, o espaço e os personagens que as compõem. Ao abandonarem a lógica do modelo tradicional/clássico de narrativa, esses filmes modulam o desejo e o olhar do espectador por meio de novas e inventivas estratégias. Nessa perspectiva, propomos visitar três produções independentes, concebidas e dirigidas pelo cineasta norte-americano Gus Van Sant, que certamente correspondem a esse tipo de cinema; e que, em conjunto, compõem o que a crítica especializada chama de “trilogia da morte”. São elas: “Gerry” (2002), “Elefante” (2003) e “Last Days” (2005).

Essas três histórias adotam como ponto de partida um fato real: no caso de Gerry, a notícia de dois jovens que se perderam no deserto, tendo apenas um deles sobrevivido; o chamado “Massacre de Columbine”, tiroteio ocorrido na Columbine High School, no Condado de Jefferson (EUA), é o argumento de Elefante; enquanto Last Days faz explícita alusão ao suicídio de Kurt Cobain. Assim, podemos dizer que a realidade serve de matéria-prima para a ficção que vemos encenada. Não se trata, no entanto, de uma simples adaptação ou da mera transposição de um acontecimento trágico para a tela de cinema. Sem dúvida, a morte se configura como a temática central dessa trilogia, mas, com igual força, ela se torna um gesto de escritura, uma manobra estético-narrativa que opera na mise en scène do filme, modulada por repetições, quebras, multiplicações, fragmentações, rupturas e espelhamentos.

Seja por meio do suicídio, “da morte pelas próprias mãos” – como no caso de Blake, protagonista de Last Days –; seja pelas mãos de um desconhecido – como no bárbaro massacre de Elefante – ou, ainda, por piedade, pelas mãos de seu melhor amigo – como vemos acontecer em Gerry –, é da fragilidade da vida que estes filmes tratam. Com efeito, a morte é o elemento central ao redor do qual a teia narrativa dessas obras vai sendo tecida, ainda que cada uma delas nos forneça um desenho bastante particular, uma tessitura única, com cores, texturas e formas que lhe são próprias. A presença da morte é algo sempre perturbador, pois ela vem colocar em perigo nossa unidade e autonomia, revelando a angústia, a solidão, e o desamparo que compartilhamos como sujeitos desejantes; seres incompletos, absolutamente dependentes e tributários da figura do outro, da alteridade.

Estamos lidando, pois, com uma espécie de sintoma que já começava a despontar com o advento do cinema moderno, e que, agora potencializado, viria atingir nuclearmente o cinema contemporâneo. Cremos que este sentimento de inadequação que toca o homem moderno teria apenas se agravado com o tempo, mostrando uma fratura (do “eu”) que se ancora sobre a figura da alteridade (do “outro”). Relacionada à ordem dos afetos, essa dificuldade trata da impossibilidade de acessar, na outridade, aquilo que a constitui como uma condicionante na construção do “eu”. No caso da trilogia vansantiana, a representação de tal crise opera como um elemento detonador da estrutura psicológica dos protagonistas, que entra em colapso, promovendo, por conseguinte, um rearranjo na estrutura narrativa do filme. Essa é a hipótese que gostaríamos de defender no desenvolvimento deste ensaio.

Bibliografia

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