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  Título
Aprendendo a ler sinais: Eugène Green e o espectador místico
Autor
Pedro de Andrade Lima Faissol
Resumo Expandido
Em “As palavras e as coisas”, Michel Foucault descreve com o seu habitual tom arqueológico a epistémê do homem renascentista. Segundo nos conta, considerava-se na época que algumas “marcas” haviam sido depositadas na natureza para que os homens pudessem decifrá-las e, assim, desvendar os seus segredos. Foucault chama essa classe de signos pelo nome “assinalação”, ou ainda “sinal”. O seu papel era “sinalizar” para uma relação externa entre dois outros elementos. Diferente da disposição binária dos signos, tal como foi difundida a partir do século XVII, definida em Port-Royal pela ligação do significante ao significado, as “assinalações” no século XVI correspondiam ao terceiro vértice de uma relação epistemológica ternária. Mas por que essa mediação, se o mundo visível já se apresentava por inteiro ao nosso conhecimento? A importância desse terceiro elemento, que existia desde o estoicismo sob o nome de “conjuntura”, se deve à distância entre as duas outras partes. “Inútil deter-se na casca das plantas para conhecer sua natureza; é preciso ir diretamente às suas marcas” (FOUCAULT, 2007, p. 36). A busca do conhecimento estaria, assim, intimamente ligada à decifração de sinais. É por isso que Foucault define a epistemologia renascentista como uma justaposição da semiologia com a hermenêutica. Essa é a origem da frutífera comparação entre a linguagem textual e a “linguagem” da natureza. O papel que os sinais exercem no grande tecido da natureza se equivale ao papel que as palavras exercem nas escrituras sagradas. São eles que permitem ao homem ascender ao conhecimento divino (divinatio). Eles correspondem ao ponto de contato, à distância, entre o homem e Deus.



Um pouco à maneira da descrição de Foucault acerca da epistémê renascentista, e muito na contramão do empirismo reinante do cinema autoral contemporâneo, Eugène Green faz hoje filmes que solicitam de seu espectador um investimento intelectual na decifração dessa mesma categoria de signos. Em “Toutes les nuits” (2001), Green coloca o seu espectador diante de uma rede de sinais luminosos cuja leitura o fará compreender o sentido do filme. E sempre haverá um sentido, não devemos perder isso de vista: como na epistémê renascentista, a interpretação corresponde a uma etapa fundamental da busca pelo conhecimento. A realidade ficcional torna-se para o espectador de cinema mais ou menos o que o mundo sensitivo é para o homem místico: campo de ação para a busca de um sentido. Nada acontece por acaso, a vida não é um “acidente da matéria”. Tudo tem um propósito, embora nem sempre se ofereça passivamente. Esses sinais, de fato, nunca se dão por inteiro. Green deixa algumas brechas pelo caminho, algumas pistas inacabadas. Cabe ao espectador se empenhar ativamente para completar o que não lhe é inteiramente dado. Assim, não lhe restará outra forma de se relacionar com o filme senão pela fé, pela crença de que de fato existe uma correspondência, à distância, entre o homem e o mundo espiritual. O espectador deve ser capaz de decifrar esses signos especiais à maneira de um vidente que busca nas sementes das plantas ou nas mãos dos homens (ou ainda nas constelações do firmamento) reflexos visíveis de um mundo espiritual superior. O gosto de Green pela metafísica neoplatônica parece encontrar aqui um amparo estético. A busca pelo conhecimento deve ser travada pelo homem, não no interior de seu inconsciente (o que explica o desprezo de Green pela Psicanálise), mas na objetividade contingente da natureza. Afinal, os sinais são como “espelhos do inteligível” cujos reflexos (perfeitamente legíveis) se apresentam ao homem como pura exterioridade.



A partir da análise de uma cena de “Toutes les nuits”, desenvolveremos mais, ao longo de nossa fala, o frutífero paralelo entre o cinema de Eugène Green e a epistémê renascentista tal como descrita por Michel Foucault.

Bibliografia

BAZIN, André. "O cinema: ensaios". São Paulo: Brasiliense, 1991.

FOUCAULT, Michel. "As palavras e as coisas". São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GREEN, Eugène. "Poétique du cinématographe". Arles: Actes Sud, 2009.

PLOTINO. "Enéada II – a organização do cosmo". Petrópolis: Vozes, 2010.

RIBON, Michel. "A arte e a natureza – ensaio e textos". Campinas: Papirus, 1991.