/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O rosto do ator : fotogenia, máscara-máquina e alma-tela
Autor
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Resumo Expandido
Nosso objetivo é investigar a evolução histórica das teorias ligadas à compreensão do rosto do ator no cinema. O conceito de fotogenia foi o primeiro direcionado para se pensar os planos de detalhe, não só do rosto ou de partes do corpo do ator, mas também de objetos e coisas. Para Delluc, a fotogenia é a capacidade que o dispositivo cinematográfico tem de revelar as prerrogativas expressivas de objetos, seres e almas, através da reprodução mecânica inerente ao dispositivo cinematográfico. Para Delluc e Jean Epstein, no cinema, vê-se uma versão nova das coisas e das pessoas, a expressividade dos elementos que aparecem no filme se distingue de todas as outras formas de representação. A ideia de fotogênico para Epstein era ligada a um engrandecimento moral das coisas, dos seres e das almas. Para exemplificar a fotogenia, conceito já bastante balizado mas essencial para se entender os desdobramentos do uso do rosto do ator posteriormente, pretendemos analisar os planos de Lilian Gish em Lírio Partido (Griffith, 1919), ao de Falconetti em A Paixão de Joana D’Arc (Dreyer, 1928) e o de Lana Turner em Imitação da Vida (Sirk, 1959). Os rostos de Gish e Falconetti serão analisados em outras formas de manifestação da fotogenia, quando o rosto dessas atrizes é inserida em outras lógicas de produção de sentido, para negar ou reforçar a ideia da expressão quase mística dos sentimentos do personagem.

Da fotogenia, Kulechov, juntamente com o teórico russo Mikhail Iampolski, elabora a teoria do rosto-máquina e rosto-máscara. Ambas as posturas de filmagem do rosto e da direção de atores propõem maneiras de se fugir da organicidade do corpo, da exteriorização dos sentimentos através do gesto. Kulechov propõe no rosto-máquina, a ginástica facial, longe de qualquer motivação psicológica, em que o rosto é dissociado em elementos perfeitamente autônomos que se movem segundo as ordens do diretor como as parte de uma máquina privado de qualquer objetivo de sentido ou significação. Os exemplos desse rosto-máquina podemos extrair do cinema soviético dos anos 1920, mas que se refletem até no cinema moderno e no cinema brasileiro contemporâneo, na obra de um autor como Júlio Bressane.

Já o rosto-máscara teve sua melhor exemplificação prática com o chamado Efeito Kulechov. Para ele, transformar o rosto em máscara significa transformá-lo em espelho, objetividade máxima. O rosto não mais reflete o que acontece no interior do organismo, mas volta sua reflexividade para o exterior. Vem daí sua capacidade em refletir movimentos do corpo e sua incapacidade em refletir movimentos da alma. Os rostos dos modelos de Robert Bresson ou dos atores contidos de Manoel de Oliveira podem também ser analisados segundo essa perspectiva.

Mais recentemente, Jacques Aumont propõe a ideia de rosto-alma e rosto-tela para diferenciar duas posturas de compreensão do corpo do ator baseados na identificação entre ator e personagem (no primeiro caso) e na dissociação entre interioridade e exterioridade do corpo do ator (no segundo caso). A alma teria um rosto?, se pergunta Aumont ao analisar o uso do rosto de Anna Karina em “Viver a Vida” (Godard, 1962) em espelhamento ao rosto de Falconetti em A Paixão de Joana d’Arc logica na qual poderíamos acrescentar o rosto de Cecilia Roth em “Tudo sobre minha mãe” (Almodóvar, 1999). Se a expressão do rosto-alma é essencialmente ligada ao jogo do ator do cinema clássico, Aumont tece suas considerações basicamente no meio do cinema moderno europeu, o plano de Anna Karina em Viver a vida representando uma exceção na concepção de jogo e rosto do ator na obra de Godard.

Paralelamente a isso, Aumont propõe a formula rosto-tela ou rosto-superfície para falar do uso do corpo das atrizes Liv Ullmann e Ingrid Thulin em Persona (Bergman, 1966), um rosto por trás do qual não existe nada e que pode se manipulado e desmontado, vindo se inscrever sobre ele até um outro rosto (o enigmático plano dos rostos sobrepostos das atrizes).

Bibliografia

AUMONT Jacques. El rostro en el cine. Barcelona : Paidós, 1998.

EPSTEIN Jean. Inteligencia de una maquina. Buenos Aires: Nuevea Vision, 1960.

IAMPOLSKI Mikhail. “Visage-masque et visage-machine”. In F. Albéra (org.), Vers une théorie de l’acteur. Lausanne: L’Age d’Homme, 1994.

MARIE Alain. "Invention de la photogénie". In Etudes cinématographiques - Numéro : 8 - Théâtre et cinéma Primavera, 1962