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  Título
A construção de sentidos por meio da narração fílmicaPartindo da premi
Autor
Rogério de Almeida
Resumo Expandido
Uma das questões centrais da filmografia de François Ozon, especificamente Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003), é a relação entre real e ficção, problema que mobiliza com mais intensidade os que olham para o cinema em diálogo/mediação com o mundo, caso notório de Bazin (1991), mas que também ocupa Gilles Deleuze (1985, 1990), Clément Rosset (2010) e Slavoj Zizek (2009).

Isso porque o referido filme mobiliza a participação do espectador para construir os sentidos de sua proposição de mundo, a partir das pistas desenvolvidas pela narrativa. Quando a história está em estado avançado de construção – sabemos da cumplicidade da escritora Sarah Morton no assassinato cometido por Julie, a filha de seu editor, ocorrido durante o processo de escrita de seu último romance –, um repentino fato, no final do filme, nos obriga a reconstruí-lo, sem que no entanto reste tempo para tal tarefa.

Utilizando a terminologia de David Bordwell (1996), é possível afirmar que há uma cumplicidade entre cineasta e espectador, pois o primeiro elabora a narrativa do filme por meio do argumento e do estilo, apresentando elementos (controlando informações) que serão cognitivamente inferidos, deduzidos pelo espectador, responsável pela construção da história. E, eu acrescentaria, por sua compreensão/interpretação.

Acontece que o filme apresenta ficção e realidade no mesmo plano, isto é, imbricadas de tal forma que não percebemos nenhuma ruptura entre uma e outra. Acreditamos que o visto é o acontecido e só no final recebemos a informação de que o que vimos, em parte, era fruto da imaginação da escritora, ou seja, construíamos duas histórias simultânea e misturadamente: a da escritora e a da sua obra. Como a informação vem no final do filme, temos de apelar à memória para reconstruir a história. Ou seja, em poucos segundos percebemos que o que havíamos construído durante todo o filme está errado, precisa ser reformulado em outra base.

A mistura entre fantasia e realidade é um dos temas recorrentes de Ozon. Em Sob a Areia (2000), a protagonista não aceita a morte do marido e age como se este estivesse vivo. No entanto, inferimos a mistura dos planos durante o filme, ainda que o acompanhemos a partir da perspectiva óptica da protagonista. Dentro da Casa (2012) é mais complexo, pois não nos permite uma distinção muito clara, ainda que nos informe desde cedo dessa imbricação. Nesse sentido, são películas que remetem à Continuidad de los parques, de Julio Cortázar.

De todo modo, são exemplos de como o cinema pode ser compreendido em sua dimensão formativa (Almeida, 2013): a narrativa fílmica intima a compreensão do espectador, portanto convoca sua participação cognitiva no entendimento, primeiramente, da narrativa, para depois construir sentidos que extrapolem a obra por meio da interpretação. Estamos, portanto, no domínio da hermenêutica, que entende que a leitura de uma obra, sua compreensão, ocorre a partir do diálogo com a proposição de mundo que a obra opera, isto é, compreender é compreender-se diante da obra (Ricoeur, 2008).

A conclusão reforça a ideia de Deleuze, de que os cineastas pensam (e eu acrescentaria: fazem pensar) por meio de imagens-movimento e imagens-tempo (Deleuze, 1985, p. 5), ou a de Rosset (2010, p. 124), de que há um tipo de cinema que não busca “evocar” uma pretensa realidade, mas apresenta as imagens “apenas como uma imagem”, isto é, que recolhe do real um ou outro fragmento, sem esperar representá-lo. Tudo isso me reconduz à tese de que compreendemos/interpretamos a ficção de modo semelhante à realidade: preenchendo lacunas por meio de inferências, deduções, repetições, antecipações etc., as quais podemos chamar de processo cognitivo ou mediação simbólica (Almeida, 2014).

Mas a experiência que o filme possibilita (o jogo cognitivo que ensina) não vale também para a compreensão do mundo real?

Bibliografia

ALMEIDA, Rogério. “O imaginário cinematográfico e a formação do homem”. In: RODRIGUES, Aurora de Jesus. (Org.). Formação de professores: teoria e pesquisa. São Paulo: Factash, 2013.

ALMEIDA, Rogério. “Cópias sem original: o real em Um alguém apaixonado, de Abbas Kiarostami” In: ALMEIDA. R. & FERREIRA-SANTOS, M. O Cinema e as possibilidades do real. São Paulo: Képos, 2014.

BAZIN, André. O Cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

BORDWELL, David. La narración en el cine de ficción. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidós, 1996.

DELEUZE, Gilles. Cinema: imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

__________. Cinema: imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

RICOEUR, Paul. Hermenêutica e Ideologias. Petrópolis, RJ, Vozes, 2008.

ROSSET, Clément. Reflexiones sobre cine. Buenos Aires: El cuenco de plata, 2010.

ZIZEK, Slavoj. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. São Paulo: Boitempo, 2009.