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  Título
Glauber Rocha e as formas de diálogo com José Lins do Rego
Autor
Arlindo Rebechi Junior
Resumo Expandido
Este trabalho busca analisar as composições audiovisuais constituídas por Glauber Rocha advindas do seu contato com as heranças literárias brasileiras. Especificamente, este trabalho focalizará o procedimento formal presente em seu segundo filme de longa-metragem, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), sob a perspectiva das leituras realizadas pelo cineasta brasileiro da obra do escritor José Lins do Rego, um legítimo representante do romance social brasileiro dos anos 1930.

Desde muito cedo, Glauber Rocha tornou-se um assíduo leitor do escritor paraibano. Em 1957, na revista Mapa número 2, Glauber Rocha publicou aquilo que, salvo engano, foi o seu primeiro ensaio de fôlego sobre um autor da literatura brasileira. Utilizando ainda seu sobrenome Andrade, ele dedicou quase 20 páginas ao escritor José Lins do Rego, que havia falecido naquele mesmo ano. Embora possa ser encarado como uma homenagem póstuma, a leitura desse texto sugere a necessidade de apreensão de outros propósitos seus. Um exame mais detalhado desse artigo deve-se a duas razões: pela compreensão dos impactos que um romancista de forte ligação com o regionalismo nordestino possa, supostamente, ter ocasionado em um jovem intelectual baiano ainda em formação; pela forma como o crítico baiano já formaliza uma visão de cunho nacionalista e uma concepção própria de arte moderna.

Tudo isso se dá de forma bastante singular no ensaio de Glauber. Nele, ele traçou um esboço crítico dos matizes e das recorrências de temas e de formas de linguagem próprios do escritor de Fogo Morto. Considerado por Glauber como um exemplar romancista, responsável pela aliança entre a qualidade literária indiscutível e o propósito de desconstruir criticamente o complexo do Nordeste, José Lins do Rego obtém o estatuto, sob o crivo do jovem baiano, de um escritor moderno por excelência. Trata-se de um modelo, conforme sugerido, a ser seguido entre os mais jovens de sua geração.

Especificamente, dentro da análise do objeto fílmico, elegeu-se a emblemática a sequência em que Corisco e seu grupo (já com Manuel) invadem a fazenda do Coronel Calazans. Notou-se, entre outras coisas, que Manuel, enquanto personagem do cangaço, opera com os mesmos termos apontados por Glauber em sua leitura de Cangaceiros de José Lins. Pois há nele, no personagem do filme e do livro, como princípio que o norteia, um dilema a ser vencido dentro da própria alienação a que está sujeito: precisa encontrar um projeto de salvação e mudança de seu destino social. A história desse personagem do filme, já sublinhada pelo melhor da fortuna crítica de Deus e o Diabo, pode ser analisada pelas três passagens ou rupturas (Xavier, 1983, p. 69-119) entre os mundos do sertão: da vida de homem explorado pelo grande proprietário de terra ao homem violento e integrado ao banditismo, passando antes, porém, pela vida de beato. Em análise miúda, o desdobramento do enredo deu-se assim: depois de deixar sua vida de vaqueiro, Manuel adere primeiro ao mundo messiânico junto a Sebastião, o santo que é morto por Rosa, para em seguida encontrar Corisco e fazer o seu segundo pacto, agora com o mundo do cangaço.

Dito de outro modo, é evidente que a figura de Manuel não apresenta as mesmas linhas de constituição do personagem Aparício, de Cangaceiros, levantado por Glauber em Mapa, não sendo, portanto, seu espelho. Interessa, todavia, aqui sublinhar o grau de comparação entre os dois universos: de José Lins e Glauber. O personagem Manuel é mais emblemático como prolongamento desse universo sertanejo retratado e destacado pelo Glauber analista do romance de José Lins. Assim, não é à toa que ele tenha escolhido de Cangaceiros de José Lins justamente a cena em que estão representados lado a lado os valores da crença divina e os valores da prática do cangaço. Trata-se de uma evidente conexão, bastante dialógica, com o modernismo de José Lins.
Bibliografia

Monzani, Josette Maria Alves de Souza. Gênese de Deus e o Diabo na terra do sol. São Paulo: Annablume/ Fapesp, 2005.

Rego, José Lins. Cangaceiros. 6. ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1976.

Rocha, Glauber. 'Romance de José Lins do Rêgo'. Mapa, ano 1, n. 2, 1957.

Xavier, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Brasiliense, 1983.