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  Título
Documentaristas brasileiras: dois períodos - ausência e presença de si
Autor
Karla Holanda
Resumo Expandido
Dezenas de mulheres estrearam na direção de filmes nos anos 1970 ou antes. Um contingente significativo desses filmes tinha temáticas sociais e políticas que abordavam, direta ou tangencialmente, a situação da mulher, demonstrando a sintonia dessas produções com a agenda feminista em pauta no Brasil naquele momento, que questionava o modelo social vigente na sociedade. Esse modelo naturalizava o destino doméstico das mulheres, a maternidade, a secundarização da realização profissional e da independência financeira, como se essas condições estivessem no campo da inevitabilidade feminina e não das escolhas. A produção dessas cineastas, em especial a documentária (que chamarei “documentários engajados”), tratava de temáticas diretamente ligadas ao interesse das mulheres, como: trabalho, filhos, aborto, inserção na política, construção de papeis sociais, etc.



O contexto de realização desses filmes é o da ditadura (1964-1985), o mesmo que, nas proximidades do cinquentenário do golpe militar, levou outras cineastas a focarem o período (também através de documentários engajados), de maneiras, ao meu ver, significativamente distintas.



As documentaristas do primeiro período, embora lidassem com temáticas que lhes interessavam diretamente, numa busca de suas próprias histórias e trajetórias na sociedade, faziam um recuo pessoal sobre o objeto tratado - a narrativa não lhes comportavam física e subjetivamente.



Por outro lado, documentaristas do período atual participam diretamente da narrativa de seus filmes que, em geral, dão luz a personalidades que viveram aquele momento de forma intensa - “Diário de uma busca” (Flávia Castro, 2010), “Uma longa viagem” (Lúcia Murat, 2011), “Marighella” (Isa Grinspum Ferraz, 2012), “Os anos com ele” (Maria Clara Escobar, 2013), para citar alguns desses documentários.



Se no primeiro período as mulheres tinham maior dificuldade em falar de si - ou a urgência dos assuntos é que exigia seu recuo -, no período atual as bandeiras encampadas pelo feminismo dos anos 1970 já se encontram diluídas nos moldes de vida urbana, encorajando o caráter autobiográfico nesses documentários recentes. Se as narrativas trazidas pelos documentários atuais mencionados acima buscam preencher uma lacuna na história política brasileira, é possível que também estejam preenchendo a lacuna pessoal deixada pelas documentaristas anteriores.



É sobre a estratégia de abordagem dos filmes entre esses dois momentos que esta comunicação, que faz parte de uma pesquisa em fase inicial, vai se centrar.

Bibliografia

CAMI-VELA, Maria. Mujeres detrás de la cámara: entrevistas con cineastas españolas 1990-2004. Madri: Ocho y Medio, 2005.

CAVALCANTE, Alcilene; HOLANDA, Karla. Feminino Plural: história, gênero e cinema. In: BRAGANÇA, Maurício de; TEDESCO, Marina (orgs). Corpos em projeção: gênero e sexualidade no cinema latino-americano. Rio de Janeiro, 7 Letras, 2013.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). Quase Catálogo 1: realizadoras de cinema no Brasil (1930-1988). Rio de Janeiro: CIEC/UFRJ, 1989.

RENOV, Michael. Imagens da subjetividade. Catálogo da 3ª Conferência Internacional de Documentário. 8º. É tudo verdade, 2003

RODRIGUES, Carla. Coreografias do feminino. Florianópolis: ed: Mulheres, 2009

SOHIET, Rachel; PEDRO, Joana Maria. A emergência da pesquisa da História das Mulheres e das relações de gênero. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH, vol. 27, nº 54, pp. 281-302, 2007

TAVARES, Mariana. Helena Solberg: do cinema novo ao documentário contemporâneo. São Paulo, Imp. Oficial,2013