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  Título
ALEA & SEMBÈNE: Cuba e Senegal no questionamento da imagem eurocêntric
Autor
Tiago de Castro Machado Gomes
Resumo Expandido
Os meios de comunicação de massa sempre foram caracterizados pela predominância de um discurso dito eurocêntrico, ou seja, do discurso proveniente da Europa (e dos “neo-europeus” de outras partes do mundo) que partia do pressuposto de que em todos os aspectos da vida, o melhor e o mais correto era aquilo produzido e pensado por esses povos. Emergiu-se assim um sentimento fictício de superioridade dessas culturas e que, em parte, foi justificativa para a colonização de diversas outras nações por tantas décadas. Segundo Robert Stam e Ella Shohat, “com base ideológica comum ao colonialismo, ao imperialismo e ao discurso racista, o eurocentrismo é uma forma de pensar que permeia e estrutura práticas e representações contemporâneas mesmo após o término oficial do colonialismo” e que se mantém de certa forma quase intacta.

No cinema, alguns realizadores buscaram romper com a imagem eurocêntrica chamando a atenção para as realidades fora do eixo hegemônico europeu-norte americano e para a possibilidade de construção de outros discursos. Esse quadro foi mais intenso principalmente nas décadas de 1960 e 1970, reconhecidas como um dos principais momentos de lutas políticas e sociais.

No cinema, movimentos e teorias como o "nuevo cine latinoamericano", o “terceiro cinema” e a “estética da fome” procuraram alternativas formais e de conteúdo que, de certa forma, contribuíram para a consolidação atual do pensamento de um mundo em teoria multicultural e transnacional.

Dentre os principais nomes que buscaram um cinema alternativo que barrasse a influência cultural imperialista estão Tomás Gutierrez Alea, em Cuba, e Ousmane Sembène, no Senegal. Ambos reconheciam no discurso eurocêntrico um mal as suas respectivas sociedades e procuraram traçar estratégias que pudessem ao mesmo tempo conquistar e conscientizar o público.

Em Cuba, o ano de 1959 marca a vitória da Revolução Cubana. O movimento liderado por Fidel Castro derrubou o governo de Fulgêncio Batista e acabou com as relações existentes com os Estados Unidos. A política cultural era uma das muitas prioridades do então recente governo revolucionário e o primeiro feito no campo cultural foi justamente a criação de um órgão voltado especificamente ao cinema: o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC). Por esse motivo, “o cinema foi fundamental para a consolidação da imagem, dentro e fora do país, do governo instituído em 1959. Também foi determinante na construção de uma certa memória da Revolução e colaborou na conformação de uma identidade latino-americana na ilha”

Em 1960, um ano após a vitória da Revolução Cubana, Senegal e diversas outras colônias francesas na África se tornaram enfim independentes - depois de décadas de lutas pela libertação e de estarem impedidos de produzirem seu próprio cinema.

O início dos anos 1960 marca então uma virada na produção cinematográfica de Cuba e Senegal com os investimentos externos na África e a criação do ICAIC em Cuba.

Os desafios pós-coloniais ou pós-revolucionários parecem ser as principais questões que interessavam a Alea e Sembène nas décadas de 1960 e 1970. Começa a surgir um pensamento mais definido em cada um deles sobre o papel da cultura, da arte e do cinema e sobre a luta contra o eurocentrismo e suas bifurcações. Enquanto Alea publicou diversos ensaios e artigos, reunidos em Dialectica del Espectador definindo uma proposta de cinema popular com a função de não somente entreter, mas transformar a realidade e melhorar a condição de seus iguais, Ousmane Sembéne, por exemplo, diz que “era necessário se tornar ‘político’ e envolvido com uma luta contra todos os males do homem... ou seja, todas as coisas que nós herdamos do sistema colonial e neocolonial.” . Em ambos, a imagem eurocêntrica era algo certamente a ser combatido.
Bibliografia

ALEA, Tomás Gutiérrez. Dialética do Espectador. São Paulo: Editora Summus, 1984.

DIAWARA, Manthia. African Cinema: Politics & Culture. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 1992.

GADJIGO, Samba. Ousmane Sembène: Dialogues with Critics and Writers. Amherst: University of Massachusetts Press, 1993.

GARRIDO, Joan del Alcázar; RIVERO, Sergio López. De compañero a contrarrevolucionário – La revolución cubana y el cine de Tomás Gutiérrez Alea. Valência: Universitat de València, 2009

GUEVARA, Alfredo, et alii. Pensamiento crítico - Cuba. Habana: Pensamiento crítico, 1970.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac Naify, 2006

VILLAÇA, Mariana Martins. Cinema Cubano – Revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010

UKADIKE, Nwachukwu Frank. Black African Cinema. Berkeley, CA: University of California Press, 1994.