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  Título
Cinema, aspirinas e urubus: a articulação de códigos como sedução poét
Autor
Genilda Azeredo
Resumo Expandido
Cinema, aspirinas e urubus: a articulação de códigos como sedução poética

Genilda Azerêdo

O filme Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes (2006), chama inicialmente atenção através do título, já que a concatenação dos termos se faz inesperada e imprevisível. Este “encontro” impertinente entre termos vai ressoar no encontro também pouco provável entre Johann (imigrante alemão) e Ranulpho (brasileiro, nordestino) nas estradas secas, escaldantes e empoeiradas do sertão. O filme é construído sob várias camadas temáticas, dentre as quais, a amizade; a viagem como ritual (consequentemente, a reativação do gênero “road movie”); a aprendizagem mútua; a questão da identidade e alteridade; o sentimento telúrico; e a expressão da violência, como a da guerra, ao longe, e aquela advinda da miséria do espaço nordestino. Em termos formais, o filme desenvolve, de modo sensível, a aparente impertinência semântica do título, através da utilização de uma multiplicidade de discursos, que vão desde os vários sotaques e diversas linguagens, até a articulação entre noticiários e música (rádio), e pequenos filmes mostrados, artesanalmente, em tendas improvisadamente montadas ao longo da viagem. O que os pequenos filmes mostram? Como os espectadores desses lugarejos pobres reagem? Além destes, outros discursos metalinguísticos povoam o filme: quando Ranulpho conta sua história a Johann; quando Ranulpho diz que inventou a história; quando a narrativa articula discurso verbal e imagético através da trilha sonora – o que diz a letra de “Serra da boa esperança”? O que conota a interpretação dada à canção? Para a presente discussão, propomos investigar o filme no entrecruzamento de universos que transitam entre o afetivo (a amizade) e o público (a guerra, a pobreza do sertão); entre o épico (o movimento da viagem) e o poético (olhares para dentro de si; a introspecção).

Bibliografia

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