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  Título
Aproximações entre "Tatuagem" e a literatura de Caio Fernando Abreu
Autor
Fabiano Grendene de Souza
Resumo Expandido
Este trabalho propõe um diálogo entre obras geradas em contextos e meios diferentes. No caso, traçaremos paralelos entre "Tatuagem", longa-metragem dirigido por Hilton Lacerda, lançado em 2013, e a obra de Caio Fernando Abreu, mais precisamente, sua produção publicada nos livros "Pedras de Calcutá" (1977) e "Morangos Mofados" (1982). Em termos gerais, este cotejo surgiu a partir da observação de que o filme de Lacerda aborda temas presentes em determinados contos do escritor: o confronto com a ditadura, a vivência do desbunde, e as relações homoeróticas. Se para delimitar o estudo alinharemos "Tatuagem" com os contos "Garopaba, mon amour" (1977) e "Sargento Garcia" (1982), é interessante lembrar que a literatura de Caio Fernando Abreu é peculiarmente relevante na relação com a ditadura, porque "a produção do autor se estende desde um período cerrado de autoritarismo militar até o crescimento dos movimentos políticos democráticos" (GINZBURG, 2005, p.37). Dentro disso, "Sargento Garcia" faz um retrato crítico do exército, a começar pela anatomia de um de seus pilares de sustentação: o quartel. Como em "Tatuagem", o conto citado explicita um dos expedientes mais usados nos quartéis: a humilhação como forma de dominação. Em contrapartida, é relevante sublinhar que nos dois exemplos há o desenvolvimento de uma relação homoerótica entre um militar e um civil: no filme, Clécio, o experiente líder do grupo teatral Chão de Estrelas, seduz o jovem soldado Fininha; já no conto, é o sargento que dá nome à história que acaba fazendo com que Hermes, um garoto de dezessete anos, perca a virgindade. Da paixão proibida ao rito de passagem fortuito, os dois exemplos parecem contundentes ao mostrar o prazer que a relação sexual traz aos envolvidos. Assim, a primeira análise comparativa deste trabalho procura entender como filme e conto criam e opõem as noções de humilhação e prazer carnal, trazendo como princípio norteador o enfoque dado ao corpo dos personagens. Já em "Garopaba, mon amour", a figura da repressão é mais potente do que em "Sargento Garcia", porque mostra-se o flagrante de uma prisão, com índices de tortura. Ao mesmo tempo, no conto, existe a descrição de uma vivência de desbunde, em que as drogas e as relações sexuais são sentidas - como em uma certa tradição dos anos 1970 - "sem ansiedade, como curtição de momento, como realce" (HOLLANDA, 1980, p.100). Desta forma, novamente a ligação com "Tatuagem" parece forte: no filme, existe uma atmosfera de celebração da vida, do presente, do coletivo, que pode ser vista não só na vivência cotidiana do grupo Chão de Estrelas, mas também em suas apresentações. Nesse sentido, são estas apresentações que fazem com que "Tatuagem" se distancie do conto do escritor. No filme de Lacerda, o que acaba chamando a atenção das autoridades, tencionando as relações com a ditadura, é o espetáculo de variedades, questionador das visões normativas da sexualidade; já em "Garopaba, mon amour", os personagens não tem por intuito a criação artística e são reprimidos pelas forças policiais por suas escolhas comportamentais. Porém, o escritor recheia o conto de elementos caros ao imaginário cultural dos anos 1960, permeando a narrativa com trilha sonora - a música "Sympathy for the devil" (1968), dos Rolling Stones, é aludida três vezes - e citações cinematográficas - o próprio título do conto evoca "Hiroshima, mon amour" (1959), de Alain Resnais. A partir daí, nossa segunda meta é comparar como filme e conto mostram momentos de convivência prazerosa de um grupo de personagens, trazendo - cada um à sua medida - um olhar que oscila entre a exaltação e a crítica. Alinhando os retratos que Hilton Lacerda e Caio Fernando Abreu fazem do corpo, do prazer hedônico e da repressão militar, poderemos aproximar e distinguir mais claramente suas abordagens.
Bibliografia

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. São Paulo: Brasiliense, 1982.



ABREU, Caio Fernando. Pedras de Calcutá. São Paulo: Alfa-Omega, 1977.



GASPARI, Elio. HOLLANDA, Heloísa Buarque de. VENTURA, Zuenir. Cultura em trânsito: da repressão à abertura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.



GINZBURG, Jaime. “Exílio, memória e história: notas sobre ‘Lixo e Purpurina’ e ‘Os sobreviventes’ de Caio Fernando Abreu”. In: Literatura e Sociedade. Universidade de São Paulo, FFLCH, São Paulo, v. 8, 2005. p. 36-45.



HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde. São Paulo: Brasiliense, 1980.



SOUZA, Fabiano de. Caio Fernando Abreu e o cinema: o eterno inquilino da sala escura. Porto Alegre: Sulina, 2011.



STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e arte da adaptação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



TREVISAN, José Silvério. Seis balas num buraco só: a crise do masculino. Rio de Janeiro e São Paulo: Editora Record, 1998.