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  Título
Consumo cinematográfico na Belle Époque carioca
Autor
Pedro Vinicius Asterito Lapera
Resumo Expandido
A década de 1890 pode ser considerada uma época de transições políticas, econômicas e sociais que teriam impacto nos rumos da sociedade brasileira das décadas seguintes. Vários golpes militares, rebeliões, as reformas urbanas, o início de uma imigração européia em massa e as conseqüências do abandono do regime escravista alteraram a economia e a vida urbana na virada dos séculos XIX e XX. Ao contemplar este panorama, reconhecemos que a experiência da modernidade foi potencializada com a invenção do cinematógrafo que, inicialmente voltada ao campo científico, expandiu-se pelos grandes centros urbanos e deu origem a novas experiências econômicas, estéticas e sociais. Seguimos a pista deixada por Jean-Claude Bernardet (1995) de que a pesquisa historiográfica sobre cinema no Brasil pautou-se na coleta e na interpretação de fontes que validassem a produção cinematográfica e que, no entanto, relegaram a distribuição e a exibição a um status secundário. Para isto, consideraremos os vestígios do consumo cinematográfico deixados nos periódicos como fundamentais para redefinir a relação entre a experiência moderna e a circulação de informação a partir das imagens. O objetivo desta comunicação é apresentar a primeira fase de um levantamento que vem sendo realizado desde 2009 nos periódicos depositados na Biblioteca Nacional, na tentativa de recolher dados que possam ser percebidos como indícios do consumo cinematográfico no Rio de Janeiro entre 1896 e 1916. Nesta primeira parte do levantamento, foram selecionados 93 periódicos de pequena e média tiragem, além de uma coleta de dados em um jornal de grande circulação (no caso, o Jornal do Brasil) ao longo de três anos (1908 a 1910). Como critério de seleção, optamos por fontes pouco consultadas em outros levantamentos. Decorre disto a ausência de fontes consideradas “clássicas” a esta discussão, como os textos de João do Rio e o jornal Gazeta de Notícias. Estas fontes remetiam intuitiva, porém diretamente, à esfera do consumo, o que foi tornado ainda mais evidente com a metodologia adotada na realização deste levantamento: o paradigma indiciário, tal como pensado por Ginzburg (2007). Pelo fato de havermos considerado como indício da atividade cinematográfica no Rio de Janeiro presente nos periódicos desde as descrições das fitas exibidas nos cinematógrafos até as charges cujo referencial era a experiência cinematográfica, dentre outros, deparamo-nos com um conjunto heterogêneo de fontes. Mesmo assim, acreditamos ser possível reuni-las em uma apresentação a partir da chave interpretativa do consumo. Centralizando no consumo a necessidade de comunicação e a disputa na produção de sentido, Mary Douglas e Baron Isherwood apostam no projeto de “restaurar a unidade devolvendo o consumo ao processo social” (2004, p. 39) e afirmam que ele “usa os bens para tornar firme e visível um conjunto particular de julgamentos nos processos fluidos de classificar pessoas e eventos. E agora o definimos como uma atividade ritual” (2004, p. 115). Evidenciam a dimensão temporal deste processo, ao reconhecerem que “o problema da vida social é fixar os significados de modo que fiquem estáveis por algum tempo” (2004, p. 112). Além disso, retomam Geertz para sublinhar o caráter partilhado do consumo como demarcador de fronteiras sociais. E, a tudo isso, complementam com a resposta do consumidor: “o objetivo mais geral do consumidor só pode ser construir um universo inteligível com os bens que escolhe” (2004, p. 112-113). Apropriando-nos desta discussão, poderíamos pensar o consumo como a produção de sentido feita individual e/ou coletivamente da experiência moderna e o cinematógrafo como um dos meios que transformaram as dinâmicas na produção e na circulação dos gostos e dos repertórios. Douglas e Isherwood percebem no século XIX as bases de formação dos padrões do consumo da modernidade, o que pode ser comprovado pelos exemplos extraídos dos romances de Henry James ao justificarem sua empreitada intelectual.
Bibliografia

ARAÚJO, Vicente de Paula.A Bela época do cinema brasileiro.São Paulo: Perspectiva, 1985. BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas.A Construção Social da Realidade.Petrópolis: Vozes, 2004. BERNARDET, Jean-Claude.Historiografia clássica do cinema brasileiro.São Paulo: Annablume, 1995. BOURDIEU, Pierre.A distinção.São Paulo: Zouk, 2011. BROOKS, Peter.The Melodramatic Imagination: Balzac, Henry James, Melodrama and the mode of excess.Yale University Press: London, 1995. CHARTIER, Roger.Práticas da leitura.São Paulo: Estação Liberdade, 2000. DOUGLAS, Mary & ISHERWOOD, Baron.O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo.Rio de Janeiro: UFRJ, 2004. GINZBURG, Carlo.O queijo e os vermes.São Paulo: Cia das Letras, 2006. __________.Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história.São Paulo: Cia das Letras, 2007. SINGER, Ben.Melodrama and modernity. Columbia: Nova York, 2000. SÜSSEKIND, Flora.Cinematógrafo de Letras: literatura, técnica e modernização no Brasil.São Paulo: Cia das Letras, 2006.