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  Título
O canto da Ceilândia: música e política nos filmes do Ceicine
Autor
Felippe Schultz Mussel
Resumo Expandido
Rap, o canto da Ceilândia (2005), primeiro curta-metragem do Coletivo de Cinema em Ceilândia, o Ceicine, é um documentário que busca ligar as rimas dos rappers da comunidade às imagens da pobreza no presente e no passado daquela cidade-satélite de Brasília, provando através de sua montagem clássica o quanto persistem as históricas injustiças socais ali praticadas. Em sua cadeira de rodas, o personagem Marquim entoa a música que encerra o filme: “Que se foda a sociedade racista!”.



O mais novo longa-metragem do grupo, Branco sai, preto fica (2014), apresenta o mesmo Marquim agora imerso em uma Ceilândia futurista, transmitindo de uma rádio clandestina as músicas dos bailes black dos anos 1980, rememorando exatamente o episódio de violência policial que o deixou paraplégico em uma daquelas festas. Simultaneamente ator de uma ficção científica e personagem documental, Marquim subverte pela mise-en-scène seu papel de vítima real, rebelando-se contra o sistema: planeja a construção de uma “bomba sonora” capaz de implodir o status quo, espécie de música concreta feita de sons do cotidiano da Ceilândia.



Separados por dez anos em suas realizações, estes dois filmes são exemplares das transformações estéticas pelas quais passaram os filmes do Ceicine, período em que o grupo realizou ainda o curta Dias de greve (2009) e o longa A cidade é uma só? (2012), nossos outros objetos de estudo – dirigidos igualmente por Adirley e reunindo um mesmo grupo de atores, roteiristas e produtores musicais da comunidade. Se os dois primeiros curtas do grupo são imediatamente reconhecidos como uma ficção e um documentário, a produção de longas-metragens do Ceicine dilui definitivamente estes limites através de uma série de experimentações que fundem procedimentos documentais e dramáticos, fazendo dessa fronteira sua potência estética e política. Nesta trajetória, saltam aos olhos e aos ouvidos do espectador a produção musical como elemento cênico executado pelos personagens, ocorrendo uma permanente exploração dos limites daquilo que Michel Chion chama de “música de tela”, quando o som filmado vem acompanhado do gesto daquele que produz o som: procedimento sensorial e diegético, atuando ao mesmo tempo como sujeito e meio. Para além da musicalidade, identificamos um permanente trabalho de reinvenção na banda sonora – vozes, cantos, ruídos, efeitos, ambientes, texturas, silêncios –, engendrando em suas oscilações estéticas as distintas formas como cada filme se impõe politicamente diante do mundo.



Greves, eleições, especulação imobiliária, segregação social e racial: não há dúvidas de que os filmes deste estudo lidam diretamente com questões políticas, e que são políticos na medida em que conscientizam o espectador e se engajam contra injustiças. No entanto, nos interessa investigar como certas transformações das “práticas estéticas” aproximam gradativamente a filmografia do Ceicine de uma escritura política não restrita ao “direto a fala”, ao tema ou a militância proletária. Tal noção de “política” é aquela ensaiada por Jaques Rancière como capaz de atuar “na distribuição geral das maneiras de fazer e nas suas relações com as maneiras de ser e as formas de visibilidade”, onde na base da política há sempre uma “estética” que determina o “recorte dos tempos e do espaço, do visível e do invisível, da palavra e do ruído”.



Se em Rap, o canto da Ceilândia as canções são diretamente responsáveis por nos conscientizar acerta as injustiças reais que vemos nas imagens; em Dias de greve a musicalidade adquire dimensão lúdica e interfere na narrativa, criando as nuances entre real e mise-en-scène; A cidade é uma só?, por sua vez, constrói, reconstrói e desconstrói músicas para denunciar a própria dimensão fictícia das imagens e sons produzidas pelo Estado em seu jogo político; Já Branco sai, preto fica radicaliza e busca na música concreta sua linguagem e conteúdo subversivos, fazendo dos sons cotidianos e banais a matéria de um experimento de emancipação.

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do povo. São Paulo: Companhia

das Letras, 2003.



CHION, Michel. La Musique au Cinéma – Le chemis de la musique. Paris: Fayard, 1995.

______________. La Audiovisión – Introducción a un análisis conjunto de la imagem y el

sonido, Barcelona: Paidós, 1998.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: A inocência perdida: cinema, televisão, ficção,

documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



GUIMARÃES, César. Vidas ordinárias, afetos comuns: o espaço urbano e seus personagens no documentário. In: GOMES, I.; CORDEIRO, R. (org.). Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



MESQUITA, Cláudia. Um drama documentário? – atualidade e história em A cidade é uma só?, In: Devires – cinema e humanidades / v.8 n.2. Belo Horizonte: UFMG, 2011.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005.



SCHAEFFER, Pierre. Tratado de los objetos musicales. Madrid: Alianza Editorial, 1988.