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  Título
Direção de fotografia, gênero e sexualidade na obra de Marco Berger
Autor
Marina Cavalcanti Tedesco
Resumo Expandido
Considerando que as técnicas não são neutras, e sim “um conjunto de meios instrumentais e sociais” (SANTOS, 2006, p. 29) que se apoia em um saber, o qual não pode ser pensado fora das relações de poder, buscamos, no início de nossa pesquisa, explicitar os pressupostos que embasaram a constituição do “como fazer” hegemônico da fotografia cinematográfica a partir de uma perspectiva de gênero.

Após a leitura de diversos manuais de cinematografia constatamos que as prescrições para se registrar de maneira “correta” a imagem de uma pessoa têm variado em função de ela ser homem ou mulher.

Quando esse contraluz, direto e duro, toca a face das atrizes, é uma catástrofe. Se essa luz tocar a bochecha da atriz, vinda assim, por trás e frisante, estará na sua pior direção e revelará volumes e relevos até então insuspeitados. Qualquer imperfeição na pele aparecerá como um caso para o dermatologista... Em muitos mais casos do que se pensa, é preciso sacrificar a força necessária ao contraluz em favor da beleza, indispensável à atriz (MOURA, 2005: 132-134).

Se a beleza era indispensável à atriz, nem sempre era este o caso do ator. “As marcas no rosto de um homem são como as divisas de um soldado, são conquistadas. Elas significam caráter; portanto, nós não devemos tentar eliminá-las, uma vez que nos closes masculinos é exatamente isso que nós ambicionamos” (ALTON, 1997: 113).

Contudo, as técnicas da “boa” direção de fotografia não orientavam o fotógrafo a construir para as mulheres uma imagem suave, delicada, sem sombras densas e grandes contrastes apenas para que a pele de seus corpos e, em especial, rostos, ficasse sempre bela. Elas pretendiam, também, construir uma visualidade em consonância com certo ideal de feminilidade, segundo o qual as mulheres (ou ao menos as “boas” mulheres) seriam frágeis, débeis, dependentes, emotivas e puras por natureza.

Isso ocorria porque uma das principais características da fotografia cinematográfica clássica, que segue influenciando enormemente a visualidade de obras audiovisuais contemporâneas, era a dramatização. Dramatizar consiste em trabalhar a luz de forma que ela seja “expressiva, retórica: dramatizada, psicologizada, metaforizada e eletiva. Que participe de um sentimento e de um sentido pleno e transparente (óbvio), ao contrário do mundo... Luz conotada, codificada” (D’ALLONNES, 1991, p.7).

Diante do que foi exposto acima, fica evidente que um dos principais pressupostos que embasaram a constituição do “como fazer” hegemônico da captação de imagens em movimento é: existem dois sexos (homem e mulher), dois comportamentos (masculino e feminino) e apenas uma orientação sexual (heterossexual) possíveis, que se entrelaçam de maneira “natural”, aproblemática, sem espaço para outras possibilidades.

Este foi o ponto de partida para o atual momento da pesquisa, onde estamos investigando a direção de fotografia de filmes que problematizam a visão dicotômica de masculino e feminino e a heterossexualidade compulsória. Nossa conclusão preliminar é que os binarismos homem masculino/mulher feminina e heterossexualidade/homossexualidade são tão cruciais não apenas para as prescrições da “boa” fotografia cinematográfica e audiovisual, mas também para o próprio pensamento sobre o tema, que será preciso desenvolver novos conceitos e categorias se quisermos compreender como a direção de fotografia participa da construção de discursos fílmicos sobre sexualidades e combinações sexo-gênero “abjetas” (BUTLER, 2000).

É com tal intuito – começar a desenvolver novos conceitos e categorias identificados como necessários, um caminho bastante longo a ser trilhado – que propomos um estudo da trilogia do diretor argentino Marco Berger, composta por Hawaii (2013), Ausente (2011) e Plan B (2009. A escolha do realizador se justifica pela centralidade do desejo homossexual masculino em suas obras e por ter trabalhado com o mesmo diretor de fotografia, Tomás Pérez Silva.
Bibliografia

ALTON, John. Painting with light. 2 Ed. University of California Press: California: 1997.



BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira Lopes (org.): O corpo educado. Pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. pp.153-172.



D’ALLONNES, Fabrice Revault. La lumière au cinema. Paris: Editions Cahiers de cinema, 1991.



MOURA, Edgar. 50 Anos Luz – Câmera e Ação. 2 Ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.



SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.