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  Título
Sob os traços do rosto severino: figuras do imigrante de José Dumont
Autor
Júlio César Alves da Luz
Resumo Expandido
A perspectiva despotencializadora que reduz a figura do imigrante nordestino a uma leitura sobretudo miserabilista, vitimizante, cristalizou uma imagem historicamente estigmatizada, nas telas cinematográficas e televisivas, expressa num reiterado retrato de uma infeliz massa de vidas condenadas, submetidas às condições de um meio árido que as sulca tanto quanto a terra da região onde sobrevivem. Os traços estereotipados que rebaixam essa figura ao qualquer um de um aglomerado indiferenciado de vidas severinas – consoante a metáfora de João Cabral de Melo Neto –, expressam igualmente as linhas que lhe desenham um rosto comum, um rosto severino, numa operação maquínica, conforme Gilles Deleuze e Félix Guattari (2007), que o captura para excluí-lo como rosto não-conforme que representa uma desviança racial em relação ao homem branco. Trata-se de uma imagem homogeneizadora que a confina numa moldura engessada, imobilizada nos traços de uma reprodução estereotipada que a remetem a uma identidade vazia.

A fim de problematizar esse ângulo despotencializador a que é reduzida a figuração do imigrante nordestino, este trabalho propõe uma leitura dos personagens interpretados pelo ator José Dumont em O Homem que Virou Suco (João Batista de Andrade, 1979) e em Morte e Vida Severina (Walter Avancini, 1981), colocando em questão, a partir da política do rosto, as linhas que marcam e rebaixam essa figura e sua cultura à ótica petrificada das assentadas estratégias de leitura em que são exibidos seus rostos. Para tanto, parte de uma abordagem em que lê o sentido de vida severina consoante o conceito agambeniano (2010) da vida nua – que é a condição da vida representada em Deraldo e Severino, vidas condenadas ao ostracismo dos interesses e atenções do poder, excluídas da política, despojadas de direito –, entretecendo esses conceitos com a reflexão sobre o rosto de modo a colocar em questão o que se denomina, aqui, rosto severino e, com isso, os termos em que se dá sua problemática figuração, os estereótipos, os esquematismos de sua representação.

Na busca, assim, de outro traçado que desfaça os contornos do aprisionamento sob o qual é reconhecida, que persistem em rebaixá-la aos traços do rosto severino, este trabalho procura repensar a figura do imigrante, por meio dos personagens de Deraldo e Severino, como expressões potenciais, de acordo com Giorgio Agamben (1993), de singularidades quaisquer, isto é, o ser qualquer que não se confunde com o qualquer ser, que não é universal, nem individual, que não apresenta condição alguma pertença, que nada o encerra sob uma identidade pela propriedade compartilhada num conjunto. Duas figuras, portanto, sob esse viés de leitura, de homens quaisquer que escapam aos contornos capturadores do rosto severino, cujos caminhos traçam linhas de fuga, contrapondo-se a representações históricas que sedimentaram já uma imagem sua despotencializadora, suscitando, pois, um ângulo crítico que coloca em questão o reproduzido retrato alienado de seu universo que as estigmatiza.

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. A Comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.



______. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de: BURIGO, Henrique. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010.



DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Ano zero – rostidade. In: Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 3. Tradução de: OLIVEIRA, Ana Lúcia de; LEÃO, Lúcia Cláudia. São Paulo: Editora 34, 2007.