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  Título
AMBIÊNCIAS DO SAGRADO NO CINEMA DE ANDREI TARKOVSKI
Autor
Adalberto Muller Junior
Resumo Expandido
Ao mesmo tempo que o cinema de Andrei Tarkovski está profundamente enraizado na cultura e na história russas – e disso depende em boa parte a sua compreensão, mas não toda, como bem demonstra Robert Bird (2008) – seus filmes não deixam de encarnar, ao modo do ícone bizantino, uma economia moderna, relativa a problemas da cultura moderna em muitas latitudes e longitudes: "O ícone", assevera Marie-José Mondzain, "surge diante dos nossos olhos carnais para manifestar um corpo do qual acolhe a luz, sem jamais se apropriar dela. Assim é a capacidade da inscrição gráfica: ela relaciona uma periferia visível com um conteúdo invisível e transfigurado. Não tem outra existência que não seja liminar, e o limiar que ela assinala é o do infinito" (Mondzain: 2013).

Particularmente expressivo no que diz respeito ao tratamento poético do sagrado e da perda da fé, na Era Moderna (Ivanov, 2001), tal cinema não faz, como querem alguns críticos, mera apologia do discurso religioso. Antes, dissolve o sagrado e o místico em ambiências – atmosferas, Stimmungen, segundo a teoria de Gumbrecht (2010) – visuais e sonoras. Tomar o discurso dos personagens de Tarkovski como uma defesa de princípios religiosos equivaleria a algo como reduzir a polifonia das vozes dostoievskianas a um discurso dominante, o que é no mínimo ingênuo. De fato, como leitor esmerado de Dostoievski – como se nota em seus Diários (2012) - Tarkovski distribui as vozes de forma dramática em seus filmes, de modo que, num filme como Andrei Rublev, fica difícil atribuir-se o discurso do diretor-autor a Kyrill ou Andrei, ou ainda ao monge-pintor Teófanes, o Grego; do mesmo modo, num filme como Stalker, as vozes dos três personagens estão falando antes em conflito trágico do que em coro; e enfim, em Sacrifício, a heteroglossia se apossa de um único personagem, dilacerado por tantas dúvidas quantas certezas.

Assim sendo, de onde vem essa impressão de que, apesar das dissonâncias internas, todos os filmes de Tarkovski parecem afirmar de modo positivo o sagrado, e, de modo negativo, as consequências dolorosas do afastamento da religião na era moderna? De onde vem o "discurso místico" de Tarkovski, se seus filmes estão construídos sobre a matéria mais instável para qualquer discurso (ainda mais secular), a saber, o tempo? Apoiado no método gumbrechtiano de leitura de ambiências - reading for the Stimmung -, quero demonstrar como se materializam as imagens e sons em que se manifesta o sagrado no cinema de Tarkovski. Mas ao mesmo tempo, assumo o risco de saber que tal materialização pressupõe uma concomitante desmaterialização, pois que é próprio do sistema icônico – e não será por acaso que Andrei Rublev assenta as bases do pensamento de Tarkovski sobre a teoria do ícone – relacionar o visível e o invisível, o audível e o inaudível. Dito de outro modo, a atmosfera do sagrado, no cinema de Tarkovski, é como a neblina, no momento em que se desfaz, em Nostalgia; é como o vapor do copo sobre a mesa em Espelho: está ali, mas está se desfazendo, quando a quero ver. Por isso talvez o cinema de Tarkovski ainda instiga, hoje, o pensamento. Pelo modo como nos desloca para zonas de indeterminação e desejo.

Como esclarece Mondzain (2004), não é na estrutura da visibilidade e na articulação das imagens apenas que está o sentido do cinema de Tarkovski; aliás, não devemos buscar um lugar onde o sentido se ocultaria para o hermeneuta. Mas então, onde está o seu sentido? Em lugar algum, afirma Mondzain; ou antes: "o cinema [de Tarkovski] faz da tela um lugar atópico, um lugar de não-acolhimento do sentido, uma zona de turbulência varrida pelo vento de todos os desejos" (2004:107). Quero conhecer tal zona a partir das reverberações e lampejos das suas ambiências, e entender por que elas me co-movem em direção a um lugar que não é o meu, que talvez não seja o nosso. Não, ainda.

Bibliografia

BIRD, Robert. Andrei Tarkovsky: elements of cinema. London: Reaktion Books, 2008.

DUNNE, Nathan (ed.) Tarkovski. London: Black Dog Publishing, 2008.

GUMBRECHT, H. U. & PFEIFFER, K.L. (org.) Materialities of communication. Stanford University Press, 1994.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir. Trad. Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC, 2010.

GUMBRECHT, Hans-Ulrich. Stimmungen Lesen. München: Hanser Verlag, 2010.

IVANOV, Vyacheslav. Ancient Terror. Em: Select Writings. Transl. Robert Bird. Evanstons, Illinois: Nortwestern University Press, 2001, p. 144-162

MONDZAIN, Marie-José. Imagem, Ícone, Economia: As fontes bizantinas do imaginário contemporâneo. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013 (col. Arte Físsil).

MONDZAIN, Marie-José. Tarkovski: Incarner à l'écran. Revue Esprit, juin 2004.

TARKOVSKI, Andrei. Diários (1970-1986). Trad. Alexey Lázarev. São Paulo: É Realizações Editora, 2012.