/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A mise-en-film da fotografia em três documentários brasileiros
Autor
Glaura Cardoso Vale
Resumo Expandido
Tendo em vista o que Rancière enfatiza ao falar da revolução estética, “passar dos grandes acontecimentos e personagens à vida dos anônimos, procurar os sintomas de um tempo, de uma sociedade ou de uma civilização nos detalhes ínfimos da vida do dia-a-dia, explicar a superfície através das camadas subterrâneas e reconstituir mundos a partir dos seus vestígios” (2010, p. 37), esta apresentação propõe uma imersão em três filmes do documentário brasileiro recente, visando uma análise dos modos como este cinema expõe a fotografia, a fim de construir uma narrativa da memória (Mnemósina) que se faz de restos, fragmentos de tempos localizados nos álbuns de família, retratos que estão à margem da história dita oficial. Uma vez ressignificadas, recontextualizadas, confrontadas e até mesmo rasuradas pela experimentação constante de um cinema que pensa a si com o outro, o uso dessas imagens evidencia, em abordagens distintas, algo comum: a partilha de um filme por vir. Pretende-se colocar em discussão como, a partir de um dispositivo de rememoração, essa imersão dos personagens nas lembranças se revela ato e potência criadora do filme que se faz na cena. Para isso será necessário estabelecer um procedimento metonímico de análise, compreendendo como essa solicitação se realiza no interior da cena e assim pensar a sua relação com o todo. Por outro lado, é possível observar cada filme metonimicamente em relação aos outros como parte integrante da memória de um cinema documentário sempre em vias de se fazer, aberto à possibilidade de (re)encenação da vida, que são múltiplas.

Antonio Weinrichter salienta que a fotografia no cinema evoca uma forma de suspensão na ausência de movimento, uma interrupção no fluxo narrativo, ao preencher todo o quadro. Aqui, interessa pensar outro recurso da mise-en-film da fotografia (Dubois, 2012a), quando tateada pelos personagens. Observar a presença da mão que folheia, arquiva e reorganiza a lembrança; e do olhar que verifica traços de um passado remoto impresso na imagem. Compreendendo essa fotografia “em punho” como rastro da presença de algo que já se tornou ausente, noção benjaminiana que Dubois traduz como uma “presença afirmando a ausência. Ausência afirmando a presença” (2012b, p. 81). Para isso, buscar-se-á traçar comparação entre produções que irão descortinar relações afetivas impressas na exposição dessas imagens, bem como a da recusa do afeto, quando não há reconhecimento. Importa verificar, nessas operações, o método cuja solicitação da fotografia coloca em cena as fragilidades e possíveis frustrações na reconstrução de algo longínquo (do ponto de vista do personagem) e desconhecido (do ponto de vista dos autores), por mais presente materialmente esteja a imagem no ato da rememoração; como a memória pode se desdobrar em camadas de “ficção” para dar conta de uma lembrança – (re)elaborar e (re)encenar biografias de personagens reais ou fictícios, suas lutas, manifestações políticas e artísticas, o que resiste. Assim, nos aproximamos da vida de uma das fundadoras de uma rádio comunitária em Belo Horizonte; de um etnógrafo português que viveu em Angola até 1974, vindo parar no Brasil com pelo menos 2mil fotografias de povos tradicionais com que teve contato, além do registro da vida privada dos colonos na África; e de atores de um grupo de teatro da capital mineira, que reinventam lembranças através de fotografias retiradas de seus próprios álbuns de família para compor personagens de uma peça de Tchekhov.

Os filmes em análise encontram-se circunscritos num período próximo de realização: Acácio (2008), de Marília Rocha; Nos olhos de Mariquinha (2008), de Claudia Mesquita e Junia Torres; e Moscou (2009), de Eduardo Coutinho. Esta apresentação faz parte de um projeto maior sobre a mise-en-film da fotografia no cinema brasileiro, em diálogo com produções estrangeiras, sob supervisão do Prof. Dr. César Guimarães (PPGCOM-UFMG), através do Programa Nacional de Pós Doutorado/CAPES.



Bibliografia

BRANDÃO, Junito. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. Vozes: Rio de Janeiro, 1991. 2v.



DUBOIS, Philippe. A imagem-memória
ou a mise-en-film da fotografia no cinema autobiográfico moderno. Revista Laika, USP, jul., 2012a. 37p.



DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 2012b.



GIL, Isabel Capeloa. Olhando as memórias dos outros... Uma ética da fotografia de Freud a Daniel Blaufuks. In: CORNELSEN, Élcio Loureiro; AMORIM, Elisa; SELIGMAN-SILVA,Márcio. Imagem e memória. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2012. p. 159-190.



GUIMARÃES, César. Imagens da memória, entre o legível e o visível. Belo Horizonte: UFMG/ POSLIT, 1997.



RANCIÈRE, J. Estética e política, a partilha do sensível. Porto: DAFNE, 2010.



SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



WEINRICHTER, Antonio. Arret sur l'image: cuando el tren de sombras se detiene. Devires, Belo Horizonte, v. 8, n. 1, p. 14-29, jan/jun 2011.