/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Atualidade do desejo: análise de 'El zapato chino' de Cristián Sánchez
Autor
Fabián Rodrigo Magioli Núñez
Resumo Expandido
A proposta de nosso trabalho é realizar uma análise do primeiro longa-metragem de Cristián Sánchez, intitulado 'El zapato chino' (1979), à luz de algumas características do cinema chileno contemporâneo. O nosso intuito é compreender o impacto na atual produção cinematográfica do Chile desse cineasta até então obscuro, graças à sua recente redescoberta. Vários jovens realizadores o reivindicam como principal influência estética no cinema chileno, ao lado do consagrado Raúl Ruiz.

Cristián Sánchez é um cineasta que possui uma obra singular, marcada por personagens erráticos, em busca de uma identidade, sendo movidos basicamente por seus desejos (geralmente, jamais consumados), confrontando-se desse modo com um mundo violento e sem sentido ao seu redor. Podemos notar na obra de Sánchez um forte diálogo com o cinema moderno e seus “predecessores”, realizadores como Buñuel, Dreyer, Sternberg, Bresson, Godard, Rohmer, Eustache e, sobretudo, o seu conterrâneo Ruiz. Apesar de ter convivido com os membros da geração do Nuevo Cine Chileno (final dos anos 1960 e começo dos 1970), Sánchez é um realizador alheio ao Nuevo Cine Latinoamericano (NCL), uma vez que jamais quis vincular sua expressão artística a temas explicitamente políticos. Nesse sentido, a ausência de militância política em sua obra não somente se explica por tê-la realizada durante a ditadura, mas principalmente por sua aversão a categorizações e rótulos. Por outro lado, a forte presença em seus filmes da violência ao lado de uma aguda atenção à prosódia chilena (o que o aproxima de Ruiz e, por extensão, a Godard) postula uma determinada política, mesmo que seja de modo implícito. Essa sensibilidade voltada ao âmbito afetivo, sua fuga aos ditames do NCL e seu experimentalismo foram o que provocaram a redescoberta da obra de Sánchez pela nova geração de cineastas chilenos. Assim, a sua modernidade cinematográfica se converte em um interlocutor privilegiado para o Novísimo Cine Chileno.

'El zapato chino' é o longa de estreia de Cristián Sánchez. Realizado de modo totalmente independente, com dinheiro do próprio diretor, foi rodado em 16mm e em preto e branco, com câmeras e refletores emprestados da Universidad Técnica del Estado (onde Sánchez havia trabalhado no departamento de cinema), durante os fins de semana, quando a equipe e o elenco dispunham de tempo livre. Nos termos do próprio diretor, tornou-se um filme “maldito” à sua revelia, porque não conseguiu entrar no meio comercial na época, sendo exibido somente em circuito alternativo. No entanto, podemos ver em sua trama - a obsessão do motorista de táxi Gallardo (interpretado pelo ator fetiche do cineasta, Andrés Quintana, então projecionista da Universidad de Chile) por Marlene (Felisa González), uma garota provinciana recém chegada a uma casa de baixo meretrício em Santiago -, uma matriz que será desenrolada em sua obra posterior, outorgando a Sánchez um caráter de autor. Portanto, é possível encarar 'El zapato chino' como um ponto de partida para toda a sua obra futura. Por outro lado, mais do que ser uma mera condensação 'in nuce' de seu projeto artístico, frisamos que 'El zapato chino' é uma obra que possui um vigor em si mesma, que salta aos olhos em comparação ao cinema realizado até então no Chile, em particular, durante a ditadura.

Portanto, o nosso intuito é estudar determinados aspectos presentes em 'El zapato chino' para que possamos compará-lo com a recente produção cinematográfica chilena. Mais do que encará-lo como uma influência modeladora aos jovens cineastas de hoje, trata-se de buscar traços comparativos (tanto nas semelhanças quanto nas diferenças) com o atual Novísimo Cine Chileno. Desse modo, o nosso objetivo último é romper com uma leitura de 'El zapato chino' como um “filme datado”, devido ao seu retrato de uma Santiago soturna e provinciana, típica dos primeiros anos da ditadura e anterior ao atual ar cosmopolita do Centro e dos bairros do Oriente da capital, fruto do "milagre econômico".
Bibliografia

BARRIL, Claudia; SANTA CRUZ, José M. (Org). "El cine que fue: 100 años de cine chileno". Santiago: Arcis, 2011.



CAVALLO, Ascanio; MAZA, Gonzalo (Org). "El novísimo cine chileno". Santiago: Uqbar, 2011.



CORRO PENJEAN, Pablo. "Retóricas del cine chileno: ensayos con el realismo". Santiago: Cuarto Propio/Pontifícia Universidad Católica de Chile, 2012.



RUFFINELLI, Jorge (Org). "El cine nómada de Cristián Sánchez". Santiago: Uqbar, 2007.



________. Cristián Sánchez: retrato del nómada que nunca se fue. In. RUSSO, Eduardo A. (Org). "Hacer cine: producción audiovisual en América Latina. Buenos Aires: Paidós, 2008. pp. 283-300.



VILLARROEL, Mónica (Org). "Enfoques al cine chileno en dos siglos". Santiago: LOM, 2013.