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  Título
Cuidado madame: o empregado doméstico nos filmes da Belair
Autor
Leonardo Esteves
Resumo Expandido
Em sua curta e radical existência, a Belair Filmes (produtora fundada por Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez) imprimiu em sua obra uma visão sombria do Brasil. Ilustra bem o momento histórico em que surge e também suas precárias condições de produção (RAMOS, 1987, p. 97). Visivelmente em sintonia com o momento do país, num impasse entre o sufocamento (as podas de uma ditadura censuradora) e a expansão (o clima industrial e de proliferação em torno da criação da Embrafilme), a filmografia da Belair partilha um descontentamento com seu tempo. Instituições como a família e o trabalho ganham lugar de destaque nessa reflexão.



O núcleo familiar é completamente desordenado e decadente em filmes como A família do barulho (1970), de Julio Bressane, e Copacabana mon amour (1970), de Rogério Sganzerla. Até aí nenhuma novidade: o modelo exposto aqui talvez radicalize a “tradução de um laboratório agressivo de exorcização da família patriarcal” (XAVIER, 2012, p. 392). Esta, já em andamento em títulos como Copacabana me engana (1968), Matou a família e foi ao cinema (1969) e Os monstros de babaloo (1970), assim como no teatro do Oficina, vai sem dúvida encontrar na obra da Belair um ponto elevado de exasperação. A figura do pai é ausente na filmografia da produtora. Não há uma autoridade que pareça impor limites às famílias que figuram nos filmes. Desde as crianças que brincam sem parcimônia com objetos letais no prólogo de A família do barulho, à mãe histérica e solitária que passa fome em casa em Copacabana mon amour. Há, entretanto, deturpações, como a personagem de Helena Ignez em A família do barulho: ela é o “pilar” da família, quem sustenta os demais “rodando bolsinha” e se intitula “o presidente dessa pocilga” – um bom exemplo da inversão de papéis que caracteriza o cinema marginal como um todo (RAMOS, 1987, p. 129); ou em Sem essa Aranha (1970), de Rogério Sganzerla: “... eu tenho 80 famílias e 600 filhos”.



A agressividade que pontua o convívio entre os familiares retratados nos filmes da Belair vai transcender o núcleo familiar e atingir sua expressão mais fatalista nas relações de trabalho. Sólida instituição econômica e social, visada nos programas governamentais pelo menos desde o Estado Novo (GARCIA, 1982, p. 109), o trabalho, como a família, é também visto de forma caótica nos enredos da produtora. Mas não qualquer trabalho: há a predileção pelo empregado doméstico. A profissão de doméstico era então sequer regulamentada, situando este emprego às margens da informalidade que caracteriza, por exemplo, outra ocupação comum às tramas da produtora: a prostituição.



O trabalhador doméstico aparece em pelo menos três inserções na filmografia do grupo que este trabalho pretende tecer considerações. O primeiro exemplo se dá no prólogo de A família do barulho, onde se vê um longo plano expositivo de uma doméstica na tábua de passar roupas. Um segundo caso se dá na relação entre Dr. Grilo e Vidimar, patrão e empregado em Copacabana mon amour. O ápice dessa relação que agrega o trabalho e a violência se dá em Cuidado madame, de Julio Bressane. Nesse filme há ampliação do trágico quadro de relacionamentos entre patrões e empregados. Uma resposta imediata ao então recente discurso otimista de posse do presidente Médici, que pressentia “normalizada a convivência entre empregados e patrões”; pondo em prática, da forma mais trágica e delirante, a crença do militar em “um mundo sem fronteiras entre países e homens ricos e pobres”. A resposta furiosa das domésticas no filme de Bressane vai arruinar a família (“A empregada matou minha mulher a facadas”) e também ilustrar uma ideia que perpassa o espírito de mudança evocado pela Belair: “Transformar pela violência esse planeta errado, vagabundo e metido a besta”.

Bibliografia

Discurso de posse do Presidente Emílio Garrastazu Médici. Mundo sem fronteiras. In: MÉDICI, Emílio Garrastazu. A verdadeira paz. Brasília: Secretaria de Impr. da Presidência de República, 1971. Disponível em: http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/emilio-medici/discurso-de-posse/discurso-de-posse/view. Acessado em 11.04.2014.



ESTEVES, L. Belair: Faces de um sonho experimental de indústria cinematográfica. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.



GARCIA, Nelson J. O Estado Novo: ideologia e propaganda política. São Paulo: Edições Loyola, 1982.



RAMOS, F. Cinema marginal (1968-73) – A representação em seu limite. Rio de Janeiro: Ed. Brasiliense, 1987.



XAVIER, I. Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: Cosac Naify, 2012.