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  Título
A voz invisível e o documentário clássico
Autor
Renan Paiva Chaves
Resumo Expandido
A presença do som nos primeiros anos do cinema sonoro – em seu formato sonoro-visual comercialmente estável, a partir do final dos anos 1920 – foi alvo de debate numa vasta quantidade de escritos. Neles, um dos temas centrais foi a voz e os limites que sua presença impôs à articulação das imagens nas etapas de pré-produção, tomada e montagem fílmica. No horizonte destas discussões estavam sobretudo os talking films e a presença da voz em formato de diálogo, a voz visível. Desde textos clássicos da literatura cinematográfica até textos mais recentes – como “The art of sound” de René Clair (1929), “Manifesto: dialogue on sound” de Basil Wright e Vivian Braun (1934), “A new Laocoön: artistic composites and the talking films” de Rudolf Arnheim (1938), “Sound in films” de Alberto Cavalcanti (1939), “Dialogue and sound” de Siegfried Kracauer (1960), “Technology and aesthetics of film sound” de John Belton (1985), “The evolution of sound technology” de Rick Altman (1985) e “The voice in the Cinema: the articulation of body and space” de Mary Ann Doane (1985) –, é notável como esta temática assume um lugar especial na construção da teoria fílmica e no exaustivo debate sobre a “essência” cinematográfica.

Contudo, num outro horizonte de referência fílmica – as produções do domínio documental –, podemos notar que a voz desempenha, nesses primeiros anos de cinema sonoro, uma papel mais libertador que limitante da articulação das imagens. No centro desta ideia localiza-se a voz em formato de comentário, a voz invisível.

Alberto Cavalcanti em “Sound in films” nota que o comentário foi relegado pela produção ficcional, que menosprezou as potencialidades deste tipo de uso da voz, que encontrou seu desenvolvimento essencialmente nos travelogues, cinejornais e documentários, que, por sua vez, deixaram de lado o diálogo, de forma geral, nos primeiros anos do cinema sonoro. O diálogo se faria presente de forma marcante no domínio documental apenas a partir da Segunda Grande Guerra, quando a dublagem e a pós-produção sonora como um todo já estavam mais bem resolvidas em termos técnicos.

As potencialidades do uso da voz invisível são perceptíveis, para além das evidentes possibilidades envolvendo a continuidade fílmica e liberdade na mise en scène e na articulação das imagens, no lirismo da oralização das vozes, nas prosas poéticas, nas experimentações sonoras e nas relações estabelecidas entre voz e imagem em documentários clássicos, como podemos averiguar, por exemplo, em New Earth (1934) de Joris Ivens, Song of Ceylon (1934) de Basil Wright, Coal face (1935) de Alberto Cavalcanti, Face of Britain (1935) de Paul Rotha, Night mail (1936) de Harry Watt e Basil Wright, People of Britain (1936) de Paul Rotha, The plow that broke the plains (1936) de Pare Lorentz, Children at School (1937) de Basil Wright, Spanish Earth (1937) de Joris Ivens, Las Hurdes (1933-1937) de Luis Buñuel, The river (1937) de Pare Lorentz, Valley Town (1940) de Willard Van Dyke, The Forgotten Village (1941) de Hebert Kline, Britain Can Make It (1946) de Francis Gysin.

Tendo em vista estas considerações, esta comunicação pretende apresentar exemplos representativos do uso da voz no documentarismo clássico em seus primeiros anos no formato sonoro, tendo no horizonte as diferentes relações sonoro-visuais engendradas, que nos primeiros anos de cinema sonoro se distanciou do uso costumeiro do domínio ficcional, e que ainda carece de uma abordagem mais detida, livre dos estigmas da assertividade e da “voz de Deus”. Estigmas estes que persistem em dominar as discussões sobre o som no documentário classíco.

Bibliografia

CAMERON, K. Sound and the documentary film. London: Sir Isaac Pitman & Sons, 1947.



CAVALCANTI, A. Filme e Realidade. Rio de Janeiro : Casa do Estudante do Brasil, 1957.



CHION, M. The voice in cinema. New York: Columbia University Press, 1999.



WEIS, E.; BELTON, J. (Eds.). Film sound: theory and practice. New York: Columbia University Press, 1985.