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  Título
Novos realismos no cinema e na televisão: visibilidades intertextuais
Autor
Rosana de Lima Soares
Resumo Expandido
A proposta tem como objetivo o estudo de discursos das mídias de caráter realista – documentário e jornalismo – a fim de estabelecer uma análise contrastiva entre eles, apontando seus pontos de contato e afastamento. Entre as hipóteses, tentaremos demonstrar que o estabelecimento das fronteiras entre fato e relato se faz no tensionamento dessas posições, estabelecendo novos realismos e alargando os limites entre “referencialidade” e “ficcionalidade” em narrativas audiovisuais, contribuindo para a reflexão sobre o estatuto da imagem na contemporaneidade. O tema volta-se aos modos de construção da representação de estigmas sociais em narrativas audiovisuais contemporâneas a partir dos processos de identificação e de partilha do sensível nelas evocadas. Por meio da análise de documentários e programas televisivos, exploraremos a questão dos novos realismos presentes nos discursos das mídias a partir de uma perspectiva histórica sobre as formas de endereçamento do mundo concreto, passando pelas injunções das imagens técnicas frente a uma cultura midiática cada vez mais marcada por processos que visam produzir determinados efeitos de realidade, oscilando entre o retorno do real e o elogio da ficção.

Desse modo, a estética realista e a hiper-realidade; a retórica testemunhal e a ênfase em visualidades precárias; as políticas de partilha do sensível e os novos regimes de visibilidade, entre outros, serão elementos fundamentais para problematizarmos o estatuto das imagens hoje e suas relações com os campos da psicanálise, da antropologia visual, da literatura, dos gêneros discursivos. A dimensão da cultura, e os processos de sua legitimação por meio dos discursos circulantes, possibilita que pensemos a produção audiovisual como sintoma de uma época pautada pelo desajuste, pelo transbordamento e pelo conflito, aspectos que se fazem presentes, portanto, em tal produção. Ao nos indagarmos sobre as maneiras pelas quais a autenticação da realidade e o retorno a uma estética realista se impõem nas narrativas do cinema e da televisão, indagamo-nos, também, sobre as possibilidades de delinear os contornos de um realismo crítico e político, oscilando entre uma forma documental de expressividade e o melodrama ficcional narrativo. Para além da construção de efeitos de realidade, em que ocorre o mascaramento dos processos de ficcionalização nela implicados (tensionados entre a opacidade e a transparência dos discursos), vemos nas narrativas audiovisuais uma espécie de retorno pregnante do real (na forma de choque, paixão ou horror) contrapondo-se ao elogio disperso da ficção. Se, a partir da psicanálise, o Real (com “R” maiúsculo) é aquilo que insiste, mas não resiste à simbolização, é no registro do imaginário – e, portanto, da proliferação de imagens – que podemos investigar as atuais poéticas de construção da representação frente às posições de totalização ou inadequação, adesão ou fricção, presentes nas narrativas audiovisuais contemporâneas, pensadas aqui não como categorias estanques, mas como formas genéricas.

Trata-se, assim, de indagar sobre os modos de construção da realidade (suas representações, identidades e visualidades) em narrativas audiovisuais (cinema e televisão) presentes nos discursos das mídias, voltando-nos especificamente para documentários e reportagens. Nesse sentido, ainda que as narrativas documentais e as narrativas ficcionais tangenciem o mundo histórico a partir de uma lógica invertida, tanto uma como a outra têm a realidade como sua matéria prima. Fatos e relatos colocam-se, assim, como estratégias complementares na organização de tais discursos, embaralhando as fronteiras antes bem demarcadas entre documentário e ficção.

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