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  Título
Encenação e construção do herói no programa Por toda minha vida
Autor
Juliana Chagas Gouveia
Resumo Expandido
Os relatos biográficos há muito tempo têm um grande público na literatura, no cinema e na televisão. Na TV, é comum a utilização da reconstituição ficcional de momentos relevantes da vida do biografado como estratégia narrativa, muitas vezes conjugada com depoimentos testemunhais, imagens de arquivo e narração em off, elementos da linguagem do documentário. Segundo Tomaim (2012, p.99), esse entrelaçamento entre ficção e não-ficção, "em que documentário e dramaturgia se mesclam, gera um produto híbrido capaz de atender às características da linguagem televisiva".



Dessa forma, nosso objetivo é analisar como a encenação é usada como estratégia narrativa e estética dentro de programas biográficos que mesclam as linguagens do documentário e da ficção para representar o personagem e contar sua trajetória. Como corpus escolhemos o programa Por toda minha vida (28 de dezembro, 22h, 2006), da Rede Globo, que “remonta a biografia de compositores e intérpretes da música popular brasileira já falecidos, misturando documentário e dramatização” (Memória Globo, 2014). Projeto sazonal da emissora, foram exibidos, entre 2006 e 2011, em horário nobre, quinze programas, entre eles as biografias de Elis Regina (2006), Nara Leão (2007) e Cartola (2011), que renderam à Rede Globo indicações ao Emmy.



Acreditamos que a escolha pela encenação tem alguns objetivos específicos que queremos problematizar. Assim, para esta análise, pretendemos questionar o uso de estratégias do melodrama nos episódios acima citados. Partimos da hipótese de que, ao recorrer aos recursos da ficção – com a reconstituição –, o programa tem o objetivo de reafirmar seu “efeito de real”, reiterando na dramatização o que foi dito no testemunho de parentes e amigos do artista biografado, que exaltam momentos importantes da vida do artista. Assim, a narrativa legitima o discurso do testemunho aos olhos do espectador. No episódio sobre Nara Leão, por exemplo, podemos ver a filha da cantora, Isabel Diegues, falando que a mãe tinha um tumor no cérebro mas, mesmo assim, amava tanto a vida que até o final quis cantar. Em seguida, na dramatização, vemos a luta da cantora para ensaiar para um show e a doença tomando conta e a impedindo de fazer uma última apresentação. Há, nessa costura entre testemunho e dramatização, o que Corner (2002) chama de “mimetismo de características do ritmo da telenovela e do talk show” e “uma construção temporal para ‘fornecer à narrativa uma estrutura e uma urgência de enredo’” (Torres, 2011, p.29, apud Corner, 2002).



Além disso, a parte ficcional também tem o objetivo de provocar a empatia e emoção no telespectador – característica do melodrama que muitas vezes tem narrativa maniqueísta e esquemática (Kornis, 2011) –, mostrar uma certa conduta moralmente correta do músico em questão e, assim, criar a figura do artista-herói, estratégia típica do relato biográfico. Interessa-nos, pois, questionar o uso da encenação como artifício para estabelecer um herói, geralmente pouco contraditório e construído principalmente a partir de relato de amigos e parentes do personagem.



Na TV, programas que tratam de trajetória de pessoas conhecidas do grande público utilizando encenação na construção de suas narrativas biográficas não é uma novidade. A própria Rede Globo já havia utilizado esse formato no programa Linha direta justiça, que exibiu as biografias de Zuzu Angel, Wladimir Herzog e Cabo Anselmo e Frei Beto. Neste caso, eram casos policiais e a narrativa baseada no suspense estava muito presente. Mas, assim como aconteceu posteriormente no Por toda minha vida, o Linha direta justiça também colocava a ficção a serviço dos “depoimentos de pessoas que de alguma maneira se relacionam com as vítimas” (Kornis, 2011).



Pretendemos, portanto, analisar a dimensão narrativa e estética da dramatização do Por toda minha vida e entender como a encenação é usada para dar um efeito de realidade e emoção à trajetória do artista, que é tratado como um herói nacional.
Bibliografia

REDE GLOBO DE TELEVISÃO. Por toda minha vida. Disponível em: . Acessado em: 14 abr. 2014.



KORNIS, Mônica Almeida. Linha direta justiça e a reconstrução do regime militar brasileiro, ou quando o “fazer justiça” cria uma memória da história. In: BORGES, Gabriela et all (eds.), Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e Documentário – Volume I. Faro e São Paulo, 2011, p. 39-51.



TOMAIM, Cássio dos Santos. Gerra e paz, o uso da encenação nas séries de documentários da RBS TV. In: BORGES, Gabriela et all (orgs.), Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e de Documentário – Volume II. Campinas, Faro e São Paulo, 2012, p. 99-112.



TORRES, Eduardo Cintra. O recurso à ficção em dois filmes documentais portugueses. In: BORGES, Gabriela et all (eds.), Televisão: Formas Audiovisuais de Ficção e Documentário – Volume I. Faro e São Paulo, 2011, p. 27-37.