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  Título
O cinema-instalação de Apichatpong e a produção de presença
Autor
Joana Paranhos Negri Ferreira
Resumo Expandido
Expoente da chamada “estética do fluxo”, o cinema de Apichatpong Weerasethakul caracteriza-se por uma construção laboriosa de ambiências imersivas em detrimento de um notório enfraquecimento narrativo.Essa construção, que engendra outra relação com o espectador, choca-se com a cartilha hegemônica onisciente cujo esquema, descrito por David Bordwell, de desenvolvimento, esclarecimento e desfecho da história institucionalizou nossa relação com o cinema.Essa relação é, antes de tudo, uma relação de saber, norteada pelo pensamento e consolidada a partir da narrativa clássica de David Griffith e que permanece arraigada à experiência cinematográfica até os dias de hoje.

Para compreender as condições de produção de sentido na arte, Gumbrecht desenvolveu a “Teoria da Materialidade da Comunicação” propondo a configuração de um campo onde a construção de significados não se baseie na interpretação e sim no que pode ser apreendido pelo corpo, faceta desvalorizada frente à supremacia da razão moderna.O desejo por presença, que se apresenta contemporaneamente segundo Gumbrecht, é uma reação à saturação da visão cartesiana preocupada com a produção de sentido e também resultado de um apartamento do sujeito do mundo que a modernidade promovera.É sob esta perspectiva que procuramos refletir acerca de instalações sensoriais e toda uma gama de dispositivos artísticos da atualidade que possibilitam o que o filósofo denomina de “produção de presença”.

“Produção de presença” e “produção de sentido” seriam dois lados da experiência estética que coexistem e se alternam em predominância de acordo com a situação: o primeiro direcionado ao corpo e o segundo ao intelecto.Quando relacionamos esses princípios ao cinema observamos um predomínio da “produção de sentido”, certamente condicionado pelo modelo clássico.No entanto, o cinema moderno e os movimentos vanguardistas tiveram uma importância fundamental no questionamento do primado da narrativa clássica viabilizando relações menos hermenêuticas com a imagem.E se podemos falar de uma tendência a efeitos de presença na vertente do “cinema de fluxo”, cabe a análise dos artifícios utilizados. Tais artifícios são tributários de recursos estilísticos de outros campos da arte.

Essa hibridação do dispositivo cinematográfico proporciona desvios no predomínio do sentido, abrindo espaço para uma maior produção de presença.Apichatpong aposta no apuro visual e na construção de atmosferas espaço-temporais.Suas obras são blocos sensoriais e funcionam menos como dispositivos narrativos e mais como vídeo-instalações imersivas que desencadeiam outros circuitos obra-espectador.Frequentemente é utilizado o recurso da divisão da narrativa com espaço e tempos próprios, como em “Mal dos Trópicos”, “Eternamente sua” e “Síndromes e um século”.Cada bloco opera um deslocamento na configuração narrativa.O espectador, assim como na vídeo-instalação, adentra ambientes distintos e que não necessariamente guardam nexos causais óbvios. É preciso, então, suspender o espaço-tempo clássico, fruir cada “ambiente” em uma temporalidade distendida.O convite é, antes de codificar, habitar a imagem e a imersão é pela via da contemplação.

Suprimir informações é impelir o espectador a trabalhar a partir de sensações.Quanto maior o afrouxamento narrativo, maiores os efeitos de presença e quanto mais sólida a narrativa, maiores os efeitos de sentido. A produção de presença implica efeitos de tangibilidade.Na obra de Apichatpong, por meio da fusão de sons ambientes e visualidades hápticas, uma natureza estrangeira é presentificada.Para Gumbrecht, a produção de presença recupera os componentes da nossa relação com as coisas no mundo de forma espacial e substancial. O “estar no mundo” para Apichatpong é, sobretudo, estar em contato com o entorno, em uma constelação sensorial que restitui esse sujeito/espectador desterritorializado.Daí a importância de toda uma arquitetura da experimentação e o caráter de instalação de sua obra.
Bibliografia

BELLOUR, Raymond (1997). Entre-Imagens, São Paulo:Papirus

BORDWELL, David.. O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios

narrativos. In: Fernão Pessoa Ramos. Teoria Contemporânea do Cinema, Volume II.

São Paulo: Senac, 2005. p. 285.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: O que o sentido não consegue

transmitir. Rio de Janeiro:Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010.

MARKS, Laura U. Touch: sensous theory and multisensory media. Minneapolis: Univ. of Minnesota Press, 2002.

___________. The skin of the film: intercultural cinema, embodiment and the senses. Durham/London: Duke Univ. Press, 2000.

PARENTE, A. Cinema em trânsito: do dispositivo do cinema ao cinema do dispositivo. In: PENAFRIA, M.; MARTINS, Í. M. (Org.). Estéticas do digital: cinema e tecnologia. Lisboa: Labcom, 2007.

SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987.