/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Estética da Montagem no Curta-metragem Sete Vidas
Autor
aline lisboa da silva
Resumo Expandido
O artigo analisa o curta Sete Vidas (2008) de Gabriel Bortolini, vencedor da primeira edição do concurso Curta Criativo na categoria ficção, em que o diretor utilizou o mesmo celular durante todo o processo de captação das imagens e criou uma concepção estética diferenciada a partir de uma narrativa labiríntica, desde o roteiro até a montagem. Narrativas multiformes como a de Sete Vidas, são concebidas a partir da experimentação de novos formatos, a exemplo dos dispositivos móveis, que unem processos técnicos aos estéticos.



O curta criativo dá início à trama quando o celular é roubado na praia de Ipanema, daí seguem-se vários plots de ação: passa por um camelô; um cliente o compra e dá de presente ao filho; o jovem troca-o por drogas com um traficante; depois é jogado em um terreno baldio; vai parar na mão de uma criança e segue com o final em aberto.



A experiência estética, ancorada na mobilidade, apresenta fortes traços do imanente e do inacabado, promovendo também a interatividade e despertando no sujeito um dueto entre criar e fruir (ROCHA, 2008). Em Sete Vidas essa dualidade se dá a partir da captura das imagens e das sequências de cada “vida”, produzindo sentido através da montagem de correspondências (AMIEL, 2007). Esta representada pelo enovelamento de fragmentos de tempo e ação, que cria o ritmo do filme através do fluxo temporal, dando margem a uma montagem aberta, desestabilizando, reenquadrando, ou mesmo acelerando seu movimento.



Essas fragmentações da montagem por correspondências possuem uma conotação particular para o filme, que apresenta também uma estrutura baseada em imagens voláteis (SANTAELLA, 2007), próprias de práticas cíbridas (BEIGUELMAN, 2008), provenientes da experimentação de uma realidade móvel.



Sete vidas configura-se diante de uma estética móvel ancorada na cultura remix, permitindo a justaposição de técnicas variadas, criando assim interfaces capazes de expressar sensorialidades, através da colagem, de forma surpreendente e aleatória. Além disso, apresenta uma narrativa labiríntica em que a enunciação de cada “vida” se dá através de cortes secos, interrompendo a tomada que está sendo capturada pela câmera, mostrando assim a passagem de um plano a outro. Com isso, surgem situações novas a cada personagem que se apropria do celular, reafirmando um caráter inacabado e de difícil decodificação da sequência anunciada; remetendo a um enredo labiríntico.



A construção do sentido é papel da montagem, que no curta também responde pela concepção sensorial, tanto imagética, quanto sonora. Outros elementos de definição da estética mobile também fazem parte da composição visual do curta, sendo aspectos particulares de produções desse universo móvel. Neste caso, a montagem correlacionada com a fotografia ou, até mesmo, a direção de arte tratam de construir uma identidade visual e sonora, inserindo o filme numa proposta conhecida como vídeo de bolso.



O diretor intenciona levar o espectador por caminhos entre o real e o ficcional, conduzindo-o a crer que Sete Vidas é uma produção resultante de fragmentos de vídeos amadores, a partir de captações feitas através de um celular, encontrado num metrô no Rio de Janeiro. O fato é que o sentido construído no curta, por Bortolini, é metafórico, seja por conta de se encontrar e se perder sucessivas vezes, passando por situações adversas; seja pela relação do título do curta com as sete vidas de um gato; ou ainda pelo sete ser considerado um número cabalístico na numerologia. O desfecho em aberto cria uma brecha para o imaginário de quem assiste ao curta, demonstrando que a concepção labiríntica e a construção de um sentido metafórico são contemplados.

Bibliografia

AMIEL, Vincent. Estética da montagem. 1ª edição. São Paulo: Texto & Grafia, 2007.



AUMONT, Jacques. (Org.) A estética do filme. 8ª ed.Campinas, SP: Papirus, 1995.



BEIGUELMAN, Giselle. Olhares nômades. In: SANTAELLA, Lúcia; ARANTES, Priscila. (Org.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008.



EINSENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.



ROCHA, Cleomar. O imanente e o inacabado: entre as dimensões sensível e pragmática da experiência na estética tecnológica. In: SANTAELLA, Lúcia; ARANTES, Priscila. (Org.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008.



SANTAELLA, Lúcia. ARANTES, Priscila. (Org.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008.



______. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.