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  Título
Leitura e recepção crítica do filme O som ao redor
Autor
Luiz Antonio Mousinho Magalhães
Resumo Expandido
Investigaremos aspectos do filme O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho e de sua recepção crítica. Daremos atenção especial à crítica jornalística, buscando delinear os contornos discursivos dessa crítica, mapear aspectos de seus métodos e teor críticos, percebendo recorrências e diálogos que a constituem. Será de nosso interesse, então, observar “o material discursivo (revistas, publicações etc) que acompanha a circulação dos filmes em determinados contextos sócio históricos de recepção” (BAMBA, p.42). No caso, sites e blogs especializados em cinema, rastreando desde aqueles que se atém mais ao discurso informativo (no sentido da divulgação), até (e, no caso, com mais ênfase) aos que aprofundam o movimento crítico, procurando combinar “cinefilia, elementos de conceituação, de análise e de avaliação” (JOLY, p.29).

José Luiz Braga ressalta o gênero crítica jornalística como dotado de uma linguagem disponível que “faz sistema com a produção e recepção” (p.226) e como processo crítico interpretativo que “se coloca “como um verdadeiro sistema social de falas sobre seu objeto” (p.229). Acompanharemos algumas dessas falas observando a recorrência da remissão às relações ficção e sociedade presentes nas críticas, procurando perceber como tal aspecto é lido, ao mesmo tempo em que estaremos observando no texto fílmico as possibilidades narrativas exploradas e o diálogo com discursos que abordam as dissonâncias de classe social no Brasil. Isso sem perder de vista que “a sociedade não se mostra diretamente legível nos filmes”, como assinala Jacques Aumont. “Só por meio do jogo complexo das correspondências, das inversões e dos afastamentos entre, por um lado, a organização e a conduta da representação cinematográfica e, por outro (...) a realidade social” é que se pode captar um estado de sociedade (AUMONT, 1995, p.99).

Investigaremos os diálogos que constituem o tecido textual do filme, sua resposta crítica e como tal crítica situa o filme no contexto das representações ficcionais do audiovisual brasileiro visto em sua feição mais contemporânea, observado em diálogo com a série histórica, em suas recorrências temáticas e em suas opções formais.

Dentre as categorias a serem observadas no texto fílmico, destacamos espaço e personagem (BRANDÃO, 2007; VANOYE; GOLIOT-LÉTE, 1994, MARTIN, 2003; CANDIDO, 1992). Paralelamente estaremos examinando o quanto a crítica analisa tais categorias. Buscaremos, então, estar atentos à confluência entre espaço narrativo e espaço social representado, isso em articulação com a percepção dos textos críticos a respeito dos personagens vistos em correlação com o tratamento espacial.

Ao falarmos em espaço narrativo, buscaremos verificar no filme a construção de atmosferas sociais bem como psicológicas (REIS; LOPES, 1988, p.204), reparando na atuação dos personagens nesses espaços (BETTON, 1987, p.29). Valerá considerar a representação da cidade como espaço físico e social, “no sentido de que a construção da narrativa é fundamentada na existência da cidade como ambiente. As ações narrativas e as interações acontecem na cidade” (ROSAS, p.106).

A questão da entonação, conforme Mikhail Bakhtin debate a questão, será analisada na construção das personagens, lembrando que, para o autor, o tom é “reflexo das relações entre homens no discurso, sua hierarquia social no discurso” (2011, p. 391) Outro fenômeno de linguagem importante apontado por Bakhtin e que pode ser observado em O som ao redor é o que ele chama de objetivização da linguagem média, que “traz o ponto de vista e o juízo correntes” de um certo meio social e do qual o texto se afasta (BAKHTIN, 1993, p.108). Interessa-nos examinar como a crítica percebe tais questões, como as debate, quais conversações estão nos textos, nos comentários aos blogs e na estrutura do filme, o que traz à nossa discussão ainda o conceito bakhtiniano de dialogismo, visto na reflexão de Robert Stam sobre o cinema (STAM, 2003, p.225).

Bibliografia

AUMONT et. al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

BAKHTIN, M.. Estética da criação verbal. SP : Martins Fontes, 2011.

BAMBA, M. Teorias da recepção cinematográfica ou teorias da espectatorialidade fílmica. In: A recepção cinematográfica. Salvador: EDUFBA, 2013. p.19-66.

BETTON, Gérard. Estética do cinema. SP: Martins Fontes, 1987.

BRAGA, J.L. A sociedade enfrenta sua mídia..SP: Paulus, 2006.

CANDIDO et. al. A personagem de ficção. SP: Perspectiva, 1992.

JOLY, M. A imagem e a sua interpretação. Lisboa: Edições 70, 2002.

MARTIN, M. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Editora Brasiliense, 2003.

REIS, C. & LOPES, A. C. Dicionário de teoria da narrativa. SP: Ática, 1988.

ROSAS,I. A personagem infantil como estratégia narrativa no cinema latino americano contemporâneo.2014. Dissertação. Universidade Federal da Bahia, Salvador.

STAM, R. Introdução à teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003.

VANOYE, F.; GOLIOT-LÉTE, A. Ensaios sobre análise fílmica. Campinas: Papirus.