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  Título
Cinema a dois: criação e narratividade em Karin Aïnouz e Marcelo Gomes
Autor
JOÃO ROBERTO CINTRA NUNES
Resumo Expandido
Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) é um filme que se originou de outro filme. É uma ficção, um longa-metragem feito a partir de artefatos documentais usados inicialmente para o curta Sertão de Acrílico Azul Piscina (2004), um documentário-devaneio, sem fio-condutor ou narração, revelando principalmente paisagens e costumes marcados pelo convívio do antigo e do novo. Ambos dirigidos por Marcelo Gomes e Karin Aïnouz, os filmes mantém um diálogo de origem e concepção, mesmo formando peças audiovisuais distintas: a grande maioria das imagens captadas para o documentário são usadas no longa, mas agora sobre o olhar de um protagonista-narrador.



Em "Viajo...", José Renato, geólogo de 35 anos (interpretado por Irandhir Santos), narra em primeira pessoa a viagem em que cruza o sertão nordestino. Em nenhum momento aparece sua figura, apenas há as imagens da região e das pessoas com quem encontra. Para o curta do qual se originou este filme, imagens foram gravadas durante uma viagem de 40 dias, em 1999, em que Gomes e Aïnouz, com uma vaga ideia de como transformariam o material em filme, decidiram registrar tudo o que os tocassem.



A decisão de fazer o longa a partir das mesmas imagens captadas de forma documental passa por uma questão: como transformar um material diversificado, sem aparente ligação, em um filme de ficção coeso? A resposta, que é a própria formulação do longa de ficção, começa pelas escolhas narrativas que acabam por entrelaçar os dois filmes: a construção do protagonista; o desenvolvimento de um enredo; e a influência nesta trama da migração do documental para o campo ficcional.



A partir de observação e descrição de Viajo porque preciso..., explorando os meios utilizados para a construção de sua narrativa, pode-se realizar um panorama que evidencia como estes elementos se relacionam com outros trabalhos anteriores de seus realizadores, formando uma rede de referências que se retroalimenta.



Este ponto nos move neste estudo: fazer uma análise comparativa entre “Viajo...” e os dois longas que cada um diretor lançou antes deste: O céu de Suely (2006), de Karin Aïnuz, e Cinema, aspirinas e urubus (2005), de Marcelo Gomes. E por que investigar filmes lançados antes? Examinar como a experiência de filmagem e finalização do documentário “Sertão...”, de 2004, e a gestação ao longo dos anos de “Viajo...”, lançado apenas em 2009, marcaram os investimentos individuais do dois diretores, os filmes “do meio”, de forma a estabelecer uma rede de criações entre estes projetos.



SALLES no seu livro Redes de Criação (2006), entende o conceito de criação como rede em processo, cuja intenção é mostrar que a criação não tem começo nem fim, ela é um processo em eterna construção, inter-relacionado, no qual defende que não podemos avaliar um objeto artístico isoladamente porque ele tem referências no trajeto percorrido pelo artista. Em outra obra, quando fala sobre crítica genética (2000, p. 14), diz que “a obra é (...) precedida por um complexo processo, feito de ajustes, pesquisas, esboços, planos, etc. Os rastros deixados pelo artista de seu percurso criador são a concretização desse processo de contínua metamorfose”. Mesmo entendendo os “rastros” como manuscritos que se vale a análise de sua teoria, procuramos nos valer das “obras como princípios que norteiam a criação”, a “relação entre obra e processo” e os procedimentos responsáveis por tudo (2000, p. 16).



Mesmo tendo os dois longas lançados antes de “Viajo...”, a gestação deste serve como “base” para os outros; e a concepção dos outros exerceu influência no que “Viajo...” resultou. Conclusões preliminares apontam em constâncias entre os três longas, que envolvem concepção narrativa de enredo e elementos diegéticos: protagonistas em trânsito/fuga; uso de músicas regionais como elemento narrativo; uso de diferentes suportes audiovisuais (evidência do documental); montagem sem preocupação com continuidade direta; aproximação com o cinema de gênero road-movie.
Bibliografia

 AÏNOUZ, K.; GOMES, M. Viajo porque preciso, volto porque te amo. Ceará/BR, 2009. 75 min. DVD.

 BAXANDALL, M. Padrões de intenção. São Paulo: Ed. Comanhia das letras, 2006.

 BORDWELL, D. Narration in the Fiction Film. Wisconsin: University of Wisconsin Press, 1986.

 _______. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas: Editora Unicamp, 2013.

 _____. The Way Hollywood Tells It: Story and Style in Modern Movies. University of California Press. 2006.

 METZ, C. A significação no cinema. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004.

 SALLES, C. A. Crítica genética: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 2000.

 _______. Redes da Criação: Construção da obra de arte. São Paulo: Ed. Horizonte, 2006.

 Viajo porque preciso, volto porque te amo – Press Book. São Paulo, 2009. Disponível em . Acesso em: 20 de setembro de 2013.