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  Título
Chame isso de um jogo entre eu e mim: Hollis Frampton e Marcel Duchamp
Autor
Patrícia Mourão
Resumo Expandido
“Eu nunca estive interessado em me olhar em um espelho estético. Minha intenção sempre foi escapar de mim mesmo, ainda que eu soubesse que eu estava me usando. Chame isso de um jogo entre ‘eu’ e ‘mim’.” Tomamos aqui a resposta de Marcel Duchamp a uma entrevista em 1962 como provocação para pensar dois trabalhos do ensaísta e cineasta-estrutural Hollis Frampton: (nostalgia), filme de 1971; e A Lecture, conferência-performance proferida no Hunter College em 1968, onde o artista abordava os aspectos essenciais da arte cinematográfica sem os quais não haveria cinema.

Ocupando lugares distintos na obra de seu autor, a produção artística e a produção intelectual, ambos os trabalhos partem de uma premissa comum: neutralizar e combater a ideia de subjetividade ou autoexpressão artística, cara aos discursos modernistas de matriz romântica. Nesse projeto iconoclasta, A Lecture e (nostalgia) recorrem a estratégias semelhantes: chamar a atenção para o autor e sua autoridade artística para então promover a desautenticação de suas formas de inclusão, até que não se possa mais confiar nelas.

A Lecture, conferência proferida em uma sala de cinema sem que nenhum presente pudesse ver o conferencista, apenas ouvi-lo através de uma gravação, termina com a seguinte declaração:



Para o bem da respeitabilidade e precisão, ele [o cineasta conferencista] substituiu sua presença pessoal por um gravador – uma performance mecânica tão infalível quanto a do projetor atrás de nós. E para exemplificar sua convicção de que nada na arte é tão dispensável quanto o artista ele mesmo, ele fez com que o seu texto fosse gravado por outro cineasta, cuja voz vocês estão ouvindo agora. Como quem fala também é um cineasta, ele está plenamente capacitado para falar sobre a única atividade sobre a qual o escritor está disposto a discutir no momento.



O cineasta que o substitui em primeira pessoa é Michael Snow e a troca de papeis entre os dois não irá terminar aí: três anos depois, será ele o narrador de (nostalgia), a autobiografia de Frampton. Nesta, Frampton narra seu amadurecimento artístico e sua passagem de fotógrafo para cineasta, a partir da queima de 13 fotos rigorosamente dispostas sobre a chapa quente de um fogão elétrico. Jogando com a disjunção temporal entre narração e imagem (a narração sempre se refere à foto por vir, ainda não mostrada), o filme promove uma série de confusões e deslizamentos entre os dêiticos da enunciação e suas imagens correspondentes, de forma que as identidades sejam sempre desautorizadas e desautenticadas: a depender da imagem, o “Eu” pode ser Frampton, Carl Andre, uma sombra, um nome escrito em um vidro ou o próprio Michael Snow, cujo retrato feito por Frampton, mas narrado por ele mesmo como se fosse Frampton, marca o ápice desses deslizamentos. Em ambos os trabalhos a expressão unívoca do “eu” é corrompida, destituída de sua autoridade, interioridade e expressividade e se vê questionada por uma espécie de indecisão quanto à localização do sujeito.

A recusa à ideia de arte como uma forma de expressão pessoal pauta parte do debate artístico desde as primeiras décadas do século XX, em especial aquele cuja linhagem remonta à Marcel Duchamp. Sua concepção ampliada de gesto criativo, sua ironia corrosiva e sua iconoclastia serão centrais para a configuração do campo artístico americano em diálogo com o qual Frampton se forma. Duchamp será uma referência constante no trabalho de Frampton e Snow, inclusive em (nostalgia), onde há duas citações a seu trabalho.

Ao longo de sua obra Duchamp empregou diferentes mecanismos de divisão e duplicação identitária que neutralizam ou tornam inócua a busca por uma subjetividade fundadora da obra. Durante a comunicação propomos um exercício de análise comparada entre os deslizamentos da identidade de Hollis Frampton e Michael Snow e aquele promovido por Marcel Duchamp entre ele e seu alterego Rrose Sélavy.

Bibliografia

Andre, Carl. Frampton, Hollis.12 Dialogues 1962-1963. New York: New York University Press, 1980.

Frampton, Hollis. A Lecture In: Jenkins, Bruce (org). On camera arts and Consecutive matters: the writings of Hollis Frampton. Cambridge: Mit Press, 2009 pp. 125-130.

______________. Notes on (nostalgia) In: Jenkins, Bruce (org). Op cit. 224.

Gidal, Peter. Interview with Hollis Frampton. In: October 32. Verão 1985 pp. 93-118

Krauss, Rosalind. Marcel Duchamp e o campo do imaginário. In: O fotográfico. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2003

_______________. “Sense and Sensibility: Reflections on post 60`s sculptures”. In: Artforum, Novembro, 1973.

Kuh, Katherine. Marcel Duchamp. In: Artist's Voice: Talks with Seventeen Artists. Nova York: Harper & Row, 1962. p 82.

Michelson, Annette. “Frampton`s Sieve”. In: October 32 – Hollis Frampton issue. Verão 1985. pp. 151-166

Weiss, Allen .Poetic Justice: Formations of subjectivity and sexual Identity. In: cinema journal 28, no1, outono, 1988