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  Título
Mono ou Atmos: a tecnologia na construção do espaço sonoro.
Autor
Andreson Silva de Carvalho
Resumo Expandido
Desde o lançamento do Vitaphone, em 1926 - com o filme Don Juan, do diretor Alan Crosland - até as primeiras experiências com sonorização multipistas - Isto é Cinerama (1952), com tecnologia de mesmo nome, reproduzindo de seis a sete canais; e O Manto Sagrado (1953), de Henry Koster, utilizando a tecnologia do Cinema Scope com sonorização distribuída em quatro canais: esquerdo, centro, direito e surround - todo o som do cinema era reproduzido de uma única fonte sonora centralizada atrás da tela. Sua centralização, porém, nunca fora empecilho para a sonorização de fontes advindas do espaço fora da tela. Apesar de uma única saída de áudio, os espectadores eram capazes de posicionar mentalmente esses sons em seus devidos lugares, estivessem eles no espaço diegético da ação, ou mesmo no espaço extradiegético. Tudo o que o espectador precisava era de alguma informação imagética que o permitisse relacionar som e imagem, situando-o espacialmente.



De certa forma, parece lógico que o cérebro sempre foi capaz de compensar a falta de espacialidade sonora dos filmes monofônicos e que qualquer avanço nesse sentido poderia parecer desnecessário. Porém, segundo John Belton, algumas teorias cinematográficas consideram a evolução tecnológica e técnica como produtos de uma demanda ideológica, constituída por determinantes sócio-econômicos. Rick Altman e Mary Ann Doane apontam para uma evolução sonora no sentido de uma auto-anulação, reduzindo os vestígios do trabalho de sonorização. Vários dos avanços tecnológicos dos primeiros anos foram no sentido de melhorar não só a qualidade da captação sonora, quanto a sua reprodução nas salas, reduzindo ruídos indesejáveis como: o barulho da câmera, das lâmpadas utilizadas para a iluminação, do tecido dos figurinos; além da troca dos microfones com condensadores para os dinâmicos. No entanto, para Belton, é impossível que a tecnologia avance a ponto de tornar a construção sonora inteiramente invisível.



Para Walter Murch, essa invisibilidade só é obtida à medida que a cena, ou no nosso caso, o som é retrabalhado e aprimorado até chegar a um ponto em que o encadeamento pareça tão natural que o próprio editor não se lembre ao certo os motivos de cada escolha e corte feitos. "Às vezes, nos melhores momentos, esse processo atinge um nível em que olho o material e digo: 'Não tive nada a ver com isso - ele se criou sozinho'." (MURCH, 2004, p. 55) A visão de Murch aponta para uma invisibilidade muito mais vinculada as escolhas estéticas do que ao avanço tecnológico. Para ele, quantidade não é qualidade. Tudo depende das escolhas feitas. Uma mixagem com apenas três canais pode ter um resultado melhor do que outra realizada com 100 canais. O que realmente faz a diferença é se a mistura dos sons consegue despertar nos espectadores a emoção que os façam mergulhar dentro da história, o que, em sua opinião, é muito mais eficiente na sugestão do que na exposição. Quanto mais informações e detalhes, tanto de som quanto de imagem, entregamos ao público, mais o colocamos na posição de espectador e menos na de participante.



O que estaria pensando John Belton diante do lançamento do Dolby Atmos? Segundo ele, num texto publicado a quase três décadas, não importa a quantidade de canais disponibilizados pelo avanço tecnológico, pois nunca atingiremos uma duplicação real das qualidades espaciais sonoras do acontecimento visto na tela. Pois, para isso, seria necessário cobrir cada centímetro quadrado da tela, com o objetivo de tentar reproduzir o número praticamente ilimitado de fontes sonoras existentes no mundo, da mesma forma que um número ilimitado de alto-falantes seria necessário para dar conta dos sons exteriores à tela. Ainda não chegamos exatamente a estrutura por ele mencionada, mas estamos caminhando nitidamente neste sentido. No entanto, a questão é: qual a importância de todo esse avanço tecnológico? Ele influencia efetivamente na construção e percepção sonora das salas de cinema?

Bibliografia

ALTMAN, Rick. "Introduction". In Yale French Studies, n° 60: Cinema/Sound. Connecticut: Yale University Press, 1908.



BELTON, John. "Technology and Aesthetics of Film Sound". In WEIS, Elisabeth & BELTON, John (org.). Film Sound: theory and practice. New York: Columbia University Press, 1985.



DOANE, Mary Ann. A Voz no Cinema. In XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema: antologia. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.



MURCH, Walter. Num piscar de olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Juliana Lins (trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.