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  Título
Verdoux, Blanche, Jasmine e a sociabilidade das finanças
Autor
Marcos César de Paula Soares
Resumo Expandido
Em 1947 Charles Chaplin lança Monsieur Verdoux, um filme que marca um ponto de inflexão na carreira do cineasta ao criar novos tipos de combinação entre armação narrativa (mais fragmentada do que aquela dos filmes imediatamente anteriores), humor negro (uma ruptura radical com a abordagem mais humanista do “vagabundo” eternizado pelo artista) e comentário social (a análise das consequências da extensão da lógica do dinheiro e da abstração do mundo financeirizado às relações humanas na Europa em plena guerra). O filme também contribui indiretamente para o exílio de Chaplin uma vez que foi imediatamente compreendido como uma potente alegoria das novas relações sociais que se desenvolviam nos Estados Unidos após a “vitória da democracia” e a “derrota do fascismo” em 1945. No mesmo ano, estreia nos palcos norte-americanos a peça Um bonde chamado desejo do dramaturgo Tennessee Williams, que enxerga essa mesma lógica de outro ponto de vista, ou seja, aquele das antigas elites sulistas em decadência e da ascensão de uma nova classe trabalhadora distante dos ideais rebeldes e revolucionários sonhados pela geração de artistas militantes dos anos 30. Ao mesmo tempo, o dramaturgo promovia um acerto de contas do moderno teatro norte-americano com a dramaturgia europeia mais avançada, notadamente em seu aproveitamento de técnicas utilizadas por Ibsen, Chekhov e Strindberg. A trajetória de Blanche Dubois, assim como de parte significativa da antiga sociedade pré-bélica no país, que desaparece para dar lugar ao processo de modernização, seria em seguida retomada pelo cineasta Elia Kazan em 1951.



Esta apresentação pretende analisar os modos através dos quais o cineasta Woody Allen retoma essas duas referências artísticas em seu recente Blue Jasmine (2014) para modificá-las, propondo novas relações intersemióticas entre cinema, teatro e literatura, com o intuito de refletir sobre os novíssimos tipos de sociabilidade criados na “pós-modernidade”, assim como sobre os tipos de armação narrativa que podem expressar tais nexos. Tomando como ponto de partida explícito a crise financeira de 2008, Blue Jasmine avança em relação aos modos de entendimento usuais desse tipo de fenômeno justamente ao tomar a peça de Tennessee Williams como referência central. Embora as semelhanças entre Blanche e Jasmine sejam relativamente claras, o filme efetua modificações importantes em relação à peça, notadamente no que toca o papel da irmã da protagonista (a Stella da peça) e, de modo ainda mais marcante, no papel de Stanley Kowalski de Williams, que no filme será dividido em diversos personagens masculinos com funções narrativas diversas. Esta apresentação tem o objetivo de apontar algumas dessas modificações e sugerir hipóteses a respeito dos efeitos dessas mudanças no andamento e na estrutura narrativa do filme recente, em que se podem detectar as lições de Chaplin e do aproveitamento de Williams das técnicas do teatro moderno europeu, e de suas relações com certo tipo de visão sobre os processos sociais contemporâneos.

Bibliografia

BAILEY, Peter (ed.). A Companion to Woody Allen. London: Wiley-Blackwell, 2013.

COSTA, Iná Camargo. Panorama do Rio Vermelho: Ensaios sobre o teatro americano moderno. São Paulo: Nankin, 2001.

MALAND, Charles. Chaplin and American Culture. New Jersey: Princeton University Press, 1991.

MARTIN, Randy. Financialization of daily life. Philadelphia: Temple University Press, 2002.

MURPHY, Brenda. The Theatre of Tennessee Williams. London: Methuen, 2014.