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  Título
O Vampiro da Cinemateca, de Jairo Ferreira
Autor
Renato Pannacci
Resumo Expandido
Jairo Ferreira realizou O Vampiro da Cinemateca, seu primeiro longa-metragem, entre 1975 e 1977, rodado em Super-8, da mesma maneira artesanal com a qual já havia realizado seus curtas nesta bitola. Artesanal e solitária, já que Jairo exerceu todas as funções técnicas na feitura do filme, desde a concepção até a finalização.

Jairo Ferreira adquiriu novo equipamento Super-8 sonoro em 1975; os dois curtas que rodou anteriormente em Suepr-8 não foram captados com som direto. Empolgado em explorar esta nova ferramenta criativa, a película Super-8 sonora, e vislumbrando suas possibilidades, Jairo inicia um processo de experimentação aberto, com finalidade incerta, aventura que acaba desembocando em O Vampiro da Cinemateca, após dois anos.

O filme começou a ser rodado aos poucos; é certo que Jairo Ferreira não tinha, previamente, a pretensão de realizar um longa-metragem. Contudo o projeto foi adquirindo proporções mais amplas com sua mistura do material captado com materiais e sons de arquivo, logo se transformando até tomar as dimensão de um longa, com 64 minutos.

Pode-se considerar O Vampiro da Cinemateca como um filme-síntese do universo de temas que cercam Jairo Ferreira, bem como uma síntese de seus principais métodos de trabalho na concepção cinematográfica. De maneira intrincada o filme combina diversos tipos de matérias-primas em sua estrutura, das quais, entre outras, destacam-se: imagens da “vida” de Jairo Ferreira, com ecos de filme-diário; a auto-representação de Jairo enquanto autor-personagem, num viés performático; imagens de filmes filmadas diretamente da tela de cinema; cenas ficcionais com encenação de atores; som direto captado no Super-8, sons de arquivo, peças radiofônicas, músicas, trilhas sonoras originais; registros de narrações off / over do autor.

Como temas centrais, despontam as discussões sobre o próprio cinema, nas citações imagéticas de filmes e na utilização de personagens como Charles Foster Kane, Dr. Phibes e Zé do Caixão, enquanto signos. Através destes personagens e da simbologia que carregam, Jairo Ferreira reflete o imaginário da cidade de São Paulo e a conjuntura da época, projetando nas sínteses advindas daí novas ideias e questões.

Fundindo experimental, documental e ficcional, pode-se aferir que Jairo Ferreira leva tais categorizações ao limite, literalmente “vira do avesso” tais domínios e suas fronteiras. Ainda assim, num exercício de indexação, pode-se analisar que a esfera predominante no filme é a experimental. Mas é fato que a todo momento reverberam ecos de ficção e documentário.

Entre os principais temas e noções teóricas que cercam O Vampiro da Cinemateca, tanto no que diz respeito à forma, na própria estrutura narrativa, quanto ao conteúdo do filme, em alusões ou citações diretas, estão a Antropofagia Cultural de Oswald de Andrade e seus consequentes atributos anticolonialistas; a influência da poesia-concreta, na questão da síntese-ideogrâmica, a propósito da construção fílmica poética; a insígnia da “invenção”, apropriação para o âmbito do cinema das teorias literárias de Ezra Pound. Entre estas três noções, pode-se afirmar a antropofagia como influência preponderante, na perspectiva de uma homologia entre as metáforas do antropófago e do vampiro.

Ainda que O Vampiro da Cinemateca avente diversos temas, trata-se essencialmente de um metafilme, um filme que discute sobretudo o próprio cinema. Um metafilme extremamente pessoal, já que o “vampiro” do título em questão não é senão o próprio Jairo Ferreira, autor e personagem principal, que conduz o universo tratado no filme através de sua presença na imagem e na narração.

Do embate entre os mais variados signos e da relação inusitada entre os mesmos, desta síntese experimental, brotam novos sentidos, por vezes não traduzíveis verbalmente, mas sim através das sensações que remetem e causam ao espectador, interlocutor que tem a tarefa de interpretar os estilhaços de sons e imagens em meio a profusão intertextual.

Bibliografia

ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1995.

CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo; PIGNATARI, Décio. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006.

COELHO, Renato (org.). Mostra Jairo Ferreira: Cinema de Invenção. São Paulo: CCBB, 2012.

COELHO, Renato. O cinema e a crítica de Jairo Ferreira. Campinas: Dissertação de Mestrado, IA/UNICAMP, 2013.

FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limoad / Embrafilme, 1986.

_______________. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000.

_______________. Umas & Outras: um safari semiológico. São Paulo: 1977.

_______________. Revista Metacinema nº 0. São Paulo: 1974.

_______________. Revista Metacinema nº 1. São Paulo: 1977.

GAMO, Alessandro Constantino (org.). Críticas de Jairo Ferreira - Críticas de invenção: os anos do São Paulo Shimbun. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.

POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 2006.