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  Título
“Enlatados”?-As séries televisivas como objeto de estudo da Sociologia
Autor
Jorge Henrique Fugimoto
Resumo Expandido
Os seriados televisivos ganharam mais atenção do público e da crítica ao longo da última década. Chamados de “enlatados” nos anos 80, ganharam sofisticação técnica e, com o advento da TV a cabo e da internet, tornaram-se presentes no cotidiano de milhões de pessoas em todo o globo, universalizando temas e, assim, obtendo expressivos índices de audiência. Diversos produtos são desenvolvidos tendo como base o grande sucesso das séries, como jogos eletrônicos, livros, webisodes, mobisodes, entre outros. Esse efeito notado entre os fãs, que passam pelos vários produtos oriundos de um seriado, nos remete a um ponto levantado por Pierre Sorlin (1992) quando se referia, no seu livro Sociologia del cine, à seleção de filmes para um trabalho com imagens. Segundo o autor, o principal critério seria o êxito da exibição, pois se uma determinada produção foi vista por uma enorme audiência, de certa forma, marcou mais profundamente o público.

Ainda que o autor se detivesse no filme e na função da exibição deste no cinema, a “suposição” que “obriga a trabalhar (...) com filmes conhecidos” também deve servir para a escolha dos seriados. Afinal, apesar de Sorlin (1992) tratar, preferencialmente, do cinema enquanto “objeto”, ele não deixa de tecer algumas considerações sobre a importância da televisão. Para ele, é nesse meio em que se manifestam mais claramente as “interferências” entre um meio de comunicação, o espetáculo e os espectadores. A TV também ajudaria a criar certos “hábitos” e a “impor” determinados “modelos”, pois atingiria um público muito maior e de forma mais contínua do que o cinema.

Se considerarmos, conforme Arlindo Machado (1997), o vídeo (formato que é utilizado na televisão) como sendo um fenômeno de comunicação em que há a transmissão de “uma mensagem” de uma “comunidade de produtores” a uma “comunidade de consumidores”, e que, devido à suas características próprias, esta tecnologia está em constante mudança e expansão, condizente com o aumento de sua produção, os seriados permitiriam ao pesquisador um interessante material para o qual poderiam ser feitas perguntas e, a partir delas, análises aprofundadas.

Diferente de outros meios, em particular do cinema, o vídeo, segundo Machado, apresenta, entre outras características, uma imagem que é fragmentada, isto é, o todo, muitas vezes, é sugerido pelo detalhe, nunca sendo “revelado de uma só vez”. Isso leva ao predomínio de planos aproximados, em detrimento aos planos gerais, e a uma limitação estratégica do número de elementos que aparecem na tela, dado que o espaço trabalhado é reduzido. Além disso, há uma predisposição do espectador ao assistir um filme, em contraponto à televisão, cujo telespectador tenderia a ser mais disperso e distraído. Isso, no entanto, se ocorre nas séries, é reduzido por outros aspectos, dado que uma parte de quem a segue é formada por aficionados que estão atentos ao conteúdo para não perder o sentido daquilo que é exibido. Concomitantemente, há diferentes estratégias utilizadas na narrativa seriada que agem no sentido de “prender a atenção”, como destaca Machado (2005). Existem os “ganchos de tensão”, utilizados entre os comerciais e ao final de capítulos, quando o relato é interrompido no exato momento em que se cria uma tensão, o telespectador quer o prosseguimento, o que de certa forma excita sua imaginação. Outro fator importante e que ocorre nas diversas séries produzidas atualmente (e em outros tipos de programas), diz respeito ao “processo produtivo” e às alterações na narrativa que ocorrem durante a própria exibição, devido principalmente às pesquisas de audiência.

Os seriados, ao longo de suas temporadas, contribuem com situações construídas imageticamente e símbolos mobilizados por um grupo de pessoas socialmente inseridas. Isso permitiria ao pesquisador de Ciências Sociais perscrutar e discutir o modo como tais construções, que envolvem diferentes temas, são elaboradas na forma de um produto cultural de entretenimento.
Bibliografia

JENKINS, Henry. “Venere no altar da convergência”: um novo paradigma para entender a transformação midiática. In: Cultura da Convergência: a colisão entre os velhos e novos meios de comunicação. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009. p. 27-53.

KRACAUER, Siegfried. Prefácio; Introducción. In: De Caligari a Hitler: Una historia psicológica del cine alemán. Barcelona: Paidós, 1985. p. 09-19.

__________. Perspectivas descentradas; O ornamento da massa; As pequenas balconistas vão ao cinema. In: O ornamento da massa: ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 9-45; p. 91-103; 311-326.

MACHADO, Arlindo. O vídeo e sua linguagem. In: Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas: Papirus, 1997. p. 188-201.

__________. A narrativa seriada. In: A televisão levada a sério. São Paulo: Editora Senac, 2005. p. 83-97.

SORLIN, Pierre. Sociología del Cine: La apertura para la historia de mañana. Mexico: Fondo de Cultura Econômica, 1992.