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  Título
Ao vivo: as múltiplas temporalidades das imagens na Jornada de Junho
Autor
Kênia Cardoso Vilaça de Freitas
Resumo Expandido
Saberíamos dizer com que tipo de temporalidade estamos lidando ao assistir na mesma tela dividida várias transmissões ao vivo de uma manifestação? Ao vermos lado a lado as várias câmeras ativistas teríamos uma dilatação do presente? Um esvaziamento? A não montagem da transmissão ao vivo possibilitaria um presente perpétuo? São questões como essas que pretendemos abordar, pensando dessa forma a temporalidade das imagens audiovisuais dentro das manifestações que aconteceram no Brasil a partir da Jornada de Junho. Acreditamos que a produção audiovisual ativista atual não apenas registra (armazena uma memória), não apenas mobiliza (constrói um engajamento) mas disputa o significado do acontecimento ativamente (cria uma dobra do presente que atualiza nas imagens e na sua circulação imediata em rede).

Tudo começou em R$ 0,20. O aumento das passagens de ônibus e de metrô em algumas capitais brasileiras gerou as primeiras manifestações puxadas pelo Movimento do Passa Livre (MPL) e apoiadas por poucas centenas de pessoas. Mas com os atos vieram a violência policial exagerada, não só contra os manifestantes, mas também contra a mídia que fazia a cobertura, e em solidariedade mais pessoas foram as ruas. O ciclo de manifestação, repressão, confronto e nova manifestação durou de forma intensa e crescente por cerca de um mês em várias cidades brasileiras. Aí já não eram apenas os vinte centavos, mas os transtornos provocados pela Copa das Confederações, a corrupção, as condições ruins de saúde e educação, entre tantas outras motivações.

Mostrando cada um desses protestos ao vivo e de dentro estavam diversos coletivos de mídia independente. Em termos técnicos, essa cobertura costuma ser feita com celulares e dispositivos 3G ou 4G, carregados por notebooks, e as transmissões são feitas via canais de exibição online que podem ser gratuitamente utilizados por qualquer usuário cadastrado. Para divulgação os coletivos utilizam seus perfis nas redes sociais. Essa transmissão ativista se destacou por: estar dentro das manifestações, entrevistar os manifestantes, uma narrativa feita de forma subjetiva (da câmera à forma de falar, a cobertura dá destaque a experiência subjetiva de quem está fazendo a transmissão) e pelas imagens ao vivo.

A questão do tempo real já estava presente na imagem da televisão e do vídeo, mas ela se intensifica no computador. Principalmente porque na tela do computador não há mais lugar para a identificação com uma única imagem, ela é, em geral, coabitada por várias janelas e imagens ao mesmo tempo. A tela do computador tem como premissa o deslocamento do corpo, e não a sua fixidez. Desde o uso de aplicativos e softwares diversos até experiências mais elaboradas de realidade virtual, na nova mídia não se trata mais de espectadores imóveis e sim de usuários participantes. Assim, o uso da transmissão ao vivo chama a atenção pelo seu caráter participativo, pelo engajamento do espectador . Sites de transmissão possuem ao lado de suas janelas de vídeo chats para que os usuários interejam entre si e também com a pessoa que está fazendo a transmissão.

Por fim, gostaríamos de chamaremos a atenção para o fato de que com a popularização das novas tecnologias, vivenciamos um deslocamento de indexalidade da imagem audiovisual: agora a garantia de “veracidade” das imagens está cada vez menos ligada a sua origem fotográfica (visto que no mundo pós-photoshop isso não faz sentido) e cada vez mais ancorada no “tempo real” de sua transmissão (que dificulta a possibilidade de interferências e edições). Temos um deslocamento da materialidade das imagens para a sua temporalidade, que nos parece essencial nessa discussão da transmissão ao vivo na internet. Esta muita vezes tem uma definição de imagem muito pequena, que fica ainda mais prejudicada nos momentos de deslocamento brusco. Ainda assim, pelo fato de estarem circulando em tempo real criam uma relação de cumplicidade e confiança entre quem transmite e os espectadores.
Bibliografia

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