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  Título
EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS: notas sobre televisualidade contemporânea
Autor
Sara Alves Feitosa
Resumo Expandido
Muito já se falou sobre as banalidades que povoam as grades de programação da televisão aberta no Brasil. Embora, Arlindo Machado (2005) já tenha apontado que este fato não é privilégio da televisão. A banalidade está por toda parte, fenômeno decorrente da apropriação industrial da cultura. Aqui o objetivo é olhar o lado oposto, ou seja, mapear o que há de experimental na telinha que preenche os espaços do nosso cotidiano. Observando a produção televisiva da última década com características de estética experimental, ou seja, aquela que rompe com a zona de conforto, que inquieta o olhar – seja por lembrar paisagens oníricas ou por provocar repulsa. Aqui o foco está na poética televisiva, ou seja, “um determinado gosto convertido em programa de arte, onde por gosto se entende toda a espiritualidade de uma época ou de uma pessoa tornada expectativa de arte” (PAREYSON, 2001, p. 17). Bem como, no uso inovador e experimental das produções televisivas. Se a preocupação é com a poética e estética televisivas, mais precisamente, com as experimentações estéticas no meio, o percurso adotado é primeiro um esclarecimento sobre o que é estética ou os problemas por ela tratado e uma descrição do que seja consensualmente identificado como a poética televisiva usual. Para daí, em um trabalho comparativo e dedutivo mapear o que há de experimental no meio, o que rompe o costumeiro no que diz respeito à estética e à poética da TV . Como observado por Philippe Dubois (2004), do ponto de vista da enunciação da palavra a televisão não modificou muito desde a sua origem “encontramos sempre o mesmo posicionamento frontal de um enunciador/locutor, o mais das vezes enquadrado em plano americano, falando diretamente ao espectador ‘dublando’ na sua fala o que as imagens mostram” (DUBOIS, 2004, p. 183). Em compensação, afirma Dubois, o tratamento visual da imagem, ou seja, a relação com o espaço, o enquadramento, os movimentos de câmera, as diversas trucagens, os efeitos de diagramação mise-en-page, conhece mudanças fundamentais. Passando de uma representação ainda cinematográfica a uma representação quase puramente tecnológica. Estas (r)evoluções no trabalho da imagem e esta imutabilidade na encenação da palavra mostram bem o quanto cada uma desta categorias corresponde a uma lógica de representação específica. Embora rupturas na poética televisiva brasileira sejam possíveis de ser observadas desde a década de 1950, marcadamente pela presença de profissionais oriundos de outras áreas como o cinema e o teatro. Entretanto, como chama atenção Pucci Jr (2012, p. 357) por mais relevante que tenha sido o papel de cada um desses “que tiveram a chance de experimentar esquemas de realização fílmica no campo comercialmente estruturado da televisão, só muito lentamente se incorporavam alguns desses esquemas aos programas televisivos no decorrer de quatro décadas”. De acordo com Pucci Jr (2012) é na década de 2000 que há indícios de utilização da imagem como elemento fundamental na poética televisiva. Utiliza-se a produção seriada do diretor Luiz Fernando Carvalho, na Rede Globo de Televisão, como material empírico base para proceder a análise. Embora perceba-se a partir das características mapeadas que estas se expressam como maior ou menor intensidade em outras produções. Os traços característicos dessas experimentações são: a) incorporação do fílmico e o uso do potencial visual do meio; b) melange de referencias estéticas que vão do naturalismo ao hipernaturalismo e do fake na constituição da imagem; c) revelação do processo de produção; d) interlocução TV/cinema expresso nos processos de produção convergentes; além de outros traços que Pucci Jr. denomina de hiperestetização na TV brasileira.
Bibliografia

DUBOIS, Philippe. Machines à images: une question de ligne générale. In: _______. La question vidéo: entre cinema et art contemporain. Crisnée (Belgique): Éditions Yellow Now, 2011. Pp. 53-76.

DUBOIS, Philippe. Por uma estética da imagem de vídeo. In: _______. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004. Pp. 69-95.

DUBOIS, Philippe. Vídeo e cinema: interferências, transformações, incorporações. In: _______. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004. Pp. 177-248.

GOMBRICH, E. H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GOMBRICH, E. H. Os usos das imagens – Estudo sobre a função social da arte e da comunicação social. Porto Alegre: Bookman Companhia Ed., 2012.

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.

PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes, 2001.