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  Título
A crítica segundo a crítica latino-americana
Autor
Eliska Altmann
Resumo Expandido
“Talvez o desafio que o cinema agora propõe à crítica se encontre na aparente desnecessidade da crítica. Ela já não integra o espaço cinematográfico ou continua parte dele em outra forma, latente, ainda não revelada de todo” – a sentença proferida pelo crítico brasileiro José Carlos Avellar coincide com a sugestão de Terry Eagleton de que “à parte de sua função marginal de reproduzir as relações sociais dominantes, a crítica se acha quase que inteiramente privada se sua raison d’être”. Isto posto, o trabalho se baseia numa dupla análise: 1) no exame de discursos sobre o campo da crítica por autores das ciências humanas, que o analisam a partir de sua construção e institucionalização assim como de sua (suposta) desnecessidade; 2) um mapeamento sociológico do campo da crítica latino-americana, de modo a verificar como o mesmo é constituído por seus próprios agentes. Para tanto, utilizaremos como fontes primárias entrevistas, frutos de uma pesquisa realizada ao longo de sete anos, em quatro países: Argentina, Brasil, Cuba e México.



Com base em relatos e memórias, propomos explorar uma cartografia sociológica da crítica cinematográfica na América Latina a partir de quatro países. Com isso, faremos relações entre os próprios agentes que constituem os campos da crítica no continente e perspectivas teóricas sobre a crítica a partir de autores como Jürgen Habermas, Walter Benjamin e Roger Bastide.



Por meio de uma sociologia dos discursos, utilizaremos como eixo analítico entendimentos sobre: a crítica como instituição, como uma das esferas a participar do processo de "artificação" de certos tipos e autores cinematográficos, e também como ela própria participa (e se insere) em um discurso ou gênero literário. Como críticos reivindicam seu ofício, de quais formas configuram sua prática escritural como linguagem e como verificam a desnecessidade da mesma são algumas questões norteadoras do argumento.



Como resultado de primeiras avaliações discursivas, noto dois principais tipos formadores de gerações constitutivas dos campos nos países abordados. A começar pelos agentes “ilustrados” da década de 1960, influenciados pelo conceito de autor, vemos que não se formaram em cursos, mas em cineclubes. A consciência de pertencerem a um grupo social valorizado apoiava-se na ideia de estarem a serviço de um projeto criador. O controle e a articulação dos agentes garantiam regras e práticas que se legitimavam pelo propósito de dever dar suporte a determinado autor ou cinematografia. Essa ideia e a política por ela inspirada asseguravam um campo e, ao mesmo tempo, conferiam seu prestígio. No entanto, a partir do momento em que sofre transformações, o status do crítico, como parte de um grupo supostamente qualificado, passa a ocupar um espaço indeterminado, a meio caminho entre uma ilustração atuante e uma “contra-esfera pública desejável, mas inexistente” (Eagleton, 1991, p. 104).



Não obstante a produção especializada e restrita, a crítica cinematográfica latino-americana experimenta um processo de democratização, ampliando-se pelo advento de novos espaços, como os meios eletrônicos, por exemplo. E aqui se encontra o segundo tipo descrito: os críticos das décadas de 1990 e 2000 que aprenderam lendo os trabalhos da geração anterior e se tornaram professores especializados de novos cursos de crítica e cinema. Estes últimos expressam opiniões diversas, tanto as que enfatizam o risco do hipotético fim da crítica, não obstante a sua amplitude em novos meios contemporâneos, quanto as que veem a pluralidade com otimismo, apontando para a riqueza da descentralização de padrões institucionalizados.



Refletir sobre a crítica por meio de suas práticas e condições de circulação requer um exame dos fundamentos do trabalho sociológico no campo do cinema.
Bibliografia

ALTMANN, E. Formação, campo e ocaso: registros da crítica cinematográfica na América Latina. Sociologia & Antropologia. Rio de Janeiro, pp. 296-311, junho 2013.

AVELLAR, J. C. et al. “Os críticos em questão: um debate sobre a atividade crítica na grande imprensa”. Filme Cultura, n. 45, pp. 4-20, março 1985.

BASTIDE, R. Problemas da sociologia da arte. In Velho, G. Arte e sociedade, I e II. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1966 e 1967.

Benjamin, W. O conceito de crítica de arte no romantismo alemão. São Paulo: Iluminuras, 1993.

BOURDIEU, P. “Les conditions sociales de la circulation internationale des idées”. Actes de la recherche en sciences sociales, dezembro 2002, pp. 3-8.

EAGLETON, T. A função da crítica. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública – investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.