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  Título
Performance, marginalidade e uma nova experiência estética
Autor
Iomana Rocha de Araújo Silva
Resumo Expandido
O longa metragem cearense Estrada para Ythaca (Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti, 2010) acompanha quatro jovens que após uma bebedeira, e para expurgarem a morte de um amigo, embarcam em uma viagem para Ythaca. O foco da história gira em torno dos próprios personagens e seus processos no decorrer da viagem, o que importa não é necessariamente o destino, mas as interações entre os personagens e os ocorridos no percurso, evidenciado pelas performances naturalistas e improvisadas. Estrada para Ythaca é marcado por um pensamento estético que passa por uma política de cinema, por decisões que implicam em toda uma ideologia de seu próprio modus operandi, caracterizado pela valorização da errância, produção em coletivo e baixo orçamento. Tal ideologia presente nesse filme remete a uma nostalgia do ‘fazer cinema’ típico do cinema novo e do cinema marginal brasileiro. O longa paraibano Batguano (Tavinho Teixeira, 2014) é um filme que discorre sobre a decadência e o amor na vida de um casal homossexual maduro um tanto peculiar: Batman e Robin. O filme tem uma narrativa poética que envolve divagações existencialistas dos personagens e momentos performáticos como potentes metáforas visuais. Num cenário quase apocalíptico, um sofá, uma televisão, um centro e vários objetos que remetem a um tempo que não é mais, local onde Batman e Robin performatizam entre si seus medos, suas esperanças, suas frustrações, com potentes artifícios de encenação. Trata-se de um conjunto de esquetes que tornam Batguano um filme dedicado à potência dos momentos em relação à quase ausência de encadeamento de uma narração. É possível observar nestes filmes uma ligação estética e ideológica com o underground/marginal, além de um foco na performance e nas ligações com a arte contemporânea. Esse protagonismo da performance coloca o foco destes filmes nos processos vivenciados e não na narrativa em si. Seguindo a linha conceitual dos artistas que trabalham com instalações, estes filmes são concebidos como “obras atmosféricas”, “ambientes sensoriais”, se assumindo como algo que não quer refletir nem decifrar o mundo captado pela câmera, mas tão-somente o isolar num espaço onde se possa experienciá-lo de maneira intensificada. Haveria assim um transbordamento do narrativo, uma vontade de algo que não seja só uma história, um sentido, uma emoção, mas que repercuta no corpo, submergindo o espectador num “banho de sensações”. Nestes filmes a ligação entre o narrador fílmico e o espectador não depende mais da coerência do processo de narrativização, uma vez que outros circuitos de afinidade espectador-filme se estabelecem. No lugar da densidade psicológica, enxertam-se blocos de afetos, fragmentos de vida sem significados fechados, uma primazia do sensorial e do corpóreo em detrimento da psicologia e do discurso. Diante dos filmes observados e das peculiaridades estéticas próprias deste cinema independente contemporâneo, notamos que trata-se de um cinema que faz o espectador ter acesso à intensidade da experiência, mas não a seu significado. Assim como os personagens, somos ultrapassados pelos eventos, o olhar é carregado por um manancial e se perde dentro dele. O espectador não precisa ir contra ou a favor do que vê, basta-lhe habitar um espaço criado para a convivência entre corpos e imagens. Dessa forma, acreditamos que essas obras, que convidam o espectador a habitar as imagens, a vivenciar o fenômeno cinema, a se fazer parte relevante da experiência cinematográfica, configuram o que seria uma nova experiência estética, típica do cinema independente contemporâneo.
Bibliografia

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