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  Título
O filme musical no Brasil após o ciclo das comédias carnavalescas
Autor
Guilherme Maia de Jesus
Resumo Expandido
Como qualquer esforço para enquadrar um conjunto de obras em uma chave de gênero, entender exatamente o que significa um “filme musical” não é tarefa simples, especialmente levando em conta os muitos tipos de filmes, de todas as partes do mundo, que recebem das locadoras, dos bancos de dados e dos estudos acadêmicos essa chancela, assim como os muitos pilares epistemológicos sobre os quais diversas noções de gênero podem ser construídas. De um modo geral, contudo, deduz-se da leitura de autores como Jane Feuer (1993), Barry K. Grant (2012) e Rick Altman (1987) um ponto em comum, que pode ser sintetizado nas palavras de Grant: via de regra, são considerados filmes musicais obras “que envolvem performances de música e/ou dança realizadas por seus personagens principais e que também incluam o canto ou a dança como elemento importante”. Sobre o que Grant quer dizer com a expressão “elemento importante”, o diretor musical Hebert Stothart (2008), apresenta uma dimensão pragmática que nos conduz a um território mais seguro: “Aprendemos que um episódio musical deve ser apresentado de forma a motivar um elemento da trama, e deve tornar-se tão vital para a história, que não pode ser dispensado. O teste de hoje é: se uma canção pode ser cortada do musical, ela não pertence a ele.



Com esta definição preliminar em mente, em uma investigação desenvolvida no âmbito dos projetos de pesquisa "O Cinema Musical no Brasil: Cinema e Televisão", apoiado pelo Edital Universal MCTI / CNPq n º 14/2013 e "O Cinema Musical na América Latina: ficção, documentários e novos formatos", beneficiado pelo Edital FAPESB 11/2013, foi realizado um mapeamento do estado da arte sobre o cinema musical no Brasil, tendo com base livros publicados e alguns dos principais bancos de textos acadêmicos. O estudo conduziu a duas conclusões: a) o cinema musical brasileiro não atrai substancialmente a atenção dos estudiosos; b) entre os trabalhos dedicados ao modo como o fenômeno se manifesta no Brasil, todos incidem, aproximadamente, sobre o ciclo das comédias musicais carnavalescas produzidas pelas companhias cinematográficas Cinédia e Atlântida.



A julgar pelo que se observa no âmbito da produção textual sobre o cinema musical no Brasil, portanto, após a “Era de Ouro” parece que o musical cinematográfico de ficção deixou de existir ou passou a não merecer atenção da pesquisa acadêmica. O que faz com que o cinema musical pós-Atlântida não seja contemplado pelos estudos sobre o cinema? Será que não há uma massa crítica quantitativa e qualitativamente suficiente para justificar investimento de energia de pesquisa? Em busca de reposta para estas questões, foi feito um levantamento de longas-metragens de ficção realizados no Brasil a partir de 1960 e classificados como musicais nos bancos de dados da Cinemateca Brasileira e do Internet Movie Database. Mesmo ciente de que o percurso de investigação até aqui realizado ainda não autoriza certezas, o estudo crê ter já encontrado evidências suficientes de que o filme musical brasileiro em nenhum momento deixou de ser produzido e que se manifesta com razoável vigor em dramas, comédias, aventuras, cinebiografias, óperas filmadas, filmes experimentais e de animação, com diferentes níveis de ambição comerciais e/ou artísticas, em obras dirigidas a um amplo espectro etário e cultural de espectadores. Como foi possível constatar, muitos diretores ligados à tradição do nosso Cinema Moderno produziram e continuam produzindo musicais e o mesmo acontece hoje com diretores iniciantes em vários estados do Brasil, contrariando a célebre afirmação de Godard – “O musical está morto -, falando sobre o seu filme Une femme est une femme (1961) logo após o lançamento da obra. Parece-nos justo, portanto, olhar com mais atenção para esses filmes que divertem crianças, jovens e adultos, conquistam prêmios nos mais importantes festivais do país, esgarçam as fronteiras do gênero e constroem uma memória da nossa canção popular.

Bibliografia

ALTMAN, Rick. The American film musical. Indianapolis: Indiana U. P., 1989.

AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CARVALHO, Márcia. A canção popular na história do cinema brasileiro. Tese. UNICAMP, 2009.

CREEKMUR, Corey e MOKDAD, Linda. (orgs.) The international film musical. Edimburgo: Edimburgh U. P., 2012.

FERREIRA, Suzana. Cinema carioca nos anos 30 e 40: os filmes musicais nas telas da cidade. São Paulo: Annablume, 2003.

FEUER, Jane. The Hollywood musical. Indianapolis: Indiana University Press, 1993.

GRANT, Barry Keith. The Hollywood Film Musical. Chichester: Wiley-Blackwell, 2012.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2008.

TINHORÃO, José Ramos. Música popular: teatro e cinema. Rio de Janeiro: Vozes, 1972.

VIEIRA, João Luiz. O corpo popular: a chanchada revisitada, ou a comédia carioca por excelência. In: Acervo, v. 16, no 1: 2003.