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  Título
ENJAULADO: PRENÚNCIOS DE UM OLHAR PARA A CIDADE NO CINEMA PERNAMBUCANO
Autor
Gabriela Alcântara de Siqueira Silva
Resumo Expandido
Um olhar crítico ao tratar da classe-média e do espaço urbano do qual faz parte. Essa é uma das principais características de obras recentes do cinema pernambucano. Destaco aqui a filmografia de Kleber Mendonça Filho, que já em 1997 anunciava essa inquietação através de um de seus primeiros curtas, a ficção “Enjaulado”.



Utilizando influências do horror clássico, “Enjaulado” apresenta um homem que acaba encontrando no suicídio a única saída para os delírios causados pela paranoia de violência que parece ter atingido parte da classe média a partir de meados dos anos 1990. Apesar de se passar no Recife e ter como ambiente principal o interior do apartamento do personagem, “Enjaulado” é um filme que se pretende universal (SOARES, 2011, p.198).



Para transmitir suas angústias ao público, o curta possui uma série de signos que convergem para certas sensações: a tensão, o atordoamento, a claustrofobia. Um dos elementos mais fortes dessa narrativa é a trilha sonora, composta pelo DJ Dolores. Durante boa parte do filme, o som cumpre o que Martin (1990, p.125) chama de “papel dramático”, apresentando um contraponto psicológico ao que é mostrado na tela.



A música funciona em conjunto com uma espécie de orquestra de ruídos, cumprindo seu “papel lírico” e “rítmico” (MARTIN, 1990, p.124-125). Duas canções estão presentes em “Enjaulado”. Uma delas, da banda Faces do Subúrbio, é apresentada no fim do filme e funciona como uma reflexão sobre o que foi exposto. Enquanto grades se fecham, ouvimos versos que falam de uma Recife linda, mas que está sendo destruída gradativamente pelo perigo que se esconde na noite, nas ruas da cidade.



A fala é um elemento sonoro importante, mas muito mais pela ausência, já que apenas pontua a narrativa, o que acentua a sensação de enclausuramento. Nos poucos momentos em que fala, o personagem reforça o tom crítico da narrativa, como quando descreve o cenário como “um apartamento classe-média trancado e cercado de grades, como vocês bem conhecem”.



Deslocando a análise para o campo imagético, é possível observar uma junção de elementos em busca da construção de uma narrativa que ressalte o terror psicológico vivido pelo personagem. Dessa forma, pode-se dizer que o espectador está diante do que Martin (1990, p.186) chama de “procedimentos narrativos subjetivos”. Um dos elementos importantes para a construção desse estado psicológico está presente especialmente na fotografia de “Enjaulado”, majoritariamente escura e granulada.



Tais sensações são alcançadas também graças ao uso de enquadramentos e movimentos consistentes, dotados de significado e seguindo uma composição que busca imprimir sensações aos planos. Podemos dizer ainda que KMF faz uso da montagem “intelectual ou ideológica – em que a sucessão de planos não é mais ditada apenas pela necessidade de contar uma história, mas também pela vontade de causar um choque psicológico no espectador” (MARTIN, 1990, p. 136).



Cercados pelas grades e por seus medos, os cidadãos representados por Mendonça Filho são cada vez mais esmagados por uma urbanização desenfreada, em “uma cidade feita de muros” (CALDEIRA apud BAUMAN, 2009, p.38-39), onde cada prenúncio de interação com o outro é acompanhado pelo temor da violência, e “a nova estética da segurança decide a forma de cada tipo de construção, impondo uma lógica fundada na vigilância e na distância” (ibidem). Em “Enjaulado”, os enquadramentos são pensados de forma que quase não se vê a paisagem urbana.



A análise das representações que o autor faz do espaço urbano e do cidadão incluído nele aponta para a gênese de uma tendência forte no cinema pernambucano contemporâneo: o olhar crítico dirigido à representação da cidade. Algumas características mostradas aqui estarão presentes em diversos filmes da nova safra, como “O Som ao Redor”, também de Mendonça Filho, “Um Lugar ao Sol”, de Gabriel Mascaro, e outros.
Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.



COMOLLI, J.-L. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.



LOTMAN, Iuri. Estética e semiótica do cinema. Lisboa: Editorial Estampa, 1978.



MACHADO, Irene. Escola de Semiótica: A experiência de Tartu-Moscou para o estudo da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.



MACHADO, Irene et al. SEMIÓTICA da cultura. Disponível em: . Acesso em: 03 set. 2012.



MARTIN, Marcel. A Linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 1990.



MORIN, Edgar. A via para o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013



SOARES, Sério Ricardo et al. Representações do lugar periférico no cinema contemporâneo brasileiro. In: Anuário Internacional de Comunicação Lusófona. 2011. Disponível em: . Acesso em: 10 set. 2012.