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  Título
A obviedade e a sutileza no discurso dos No-Do na II Guerra Mundial
Autor
Rafael Fermino Beverari
Resumo Expandido
Os enormes conflitos ali colocados durante a Civil Espanhola (1936 - 1939) situam-se não apenas nos campos do econômico, do político, mas também do ideológico: em meio a tantas batalhas, há aquela que envolve uma disputa simbólica, na qual rivalizam diferentes representações da realidade.

Os nacionalistas produziram 93 filmes, o que é pouco se comparado aos 360 filmes republicanos. Evidentemente esses números mudam com a chegada de Franco ao poder, em 1939. Herdeiro de uma Espanha cindida e destruída, e não apenas nos aspectos físicos e materiais, o novo governo logo se deu conta da necessidade de conquistar ideologicamente os espanhóis, para a obtenção não apenas da pacificação do país no pós-guerra, mas, sobretudo, para se apresentar como o governo de "todos" os espanhóis. Uma das armas para a conquista de tal resultado foi o cinema, seguindo exemplo de outros países que, à mesma época, haviam percebido o seu potencial como propagador de ideologias. No entanto, mais do que a produção de ficções e de não ficções, o que nos chama a atenção é o surgimento, em fins de 1942, mais de três anos após o término da guerra civil, do No-Do - os Noticiários y Documentales, produzidos pelo governo franquista e exibido em todo o território de influência espanhola, com difusão obrigatória nos cinemas a partir de janeiro de 1943. Tais noticiários destacam-se não apenas por serem uma peça de propaganda pró-Franco, mas em virtude da estrutura profissional de sua equipe, da regularidade com que era exibido, do seu formato e da obrigatoriedade de sua exibição.

Para compreender o modo como estão articulados o conteúdo e a forma promovidos por estes noticiários, o presente trabalho enveredará pelo tortuoso caminho que se desenha entre os diversos discursos que vão se consolidando na sociedade ao longo de sua história, escovando-a a contrapelo, de modo a permitir que se revelem as inquietações e dissonâncias onde normalmente aparecem apenas as versões oficiais e aparentes.

Pois é ao questionar a noção de progresso pautado numa concepção linear dos acontecimentos que esta pesquisa pretende investigar como esse enorme aparato de disseminação das ideias fascistas no pós-guerra civil espanhola contribuiu enquanto construção ideológica e imagética de enorme força em um contexto contraditório e de intenso conflito.

Visando elucidar como foi construída a relação entre Espanha e Alemanha nos Noticiarios y Documentales durante a 2ª Guerra Mundial, pretende-se compreender, por meio da análise dessas reportagens, como foi negociada, semanalmente, a construção da ideia de uma Espanha que, internamente, estava unida durante o conflito mundial, ao passo que, do ponto de vista externo, tomou decisões peculiares aos lados em disputa. Deste modo, pretende-se explorar a tensão existente entre evidência e representação presente no discurso fílmico do No-Do, dando particular atenção ao modo como nele estão articulados os elementos expressivos do audiovisual.

Assim como a estética e as descrições envolvidas na fonte audiovisual devem se articular com a realidade social, as memórias construídas pelas imagens também traçam distintos caminhos no decorrer do tempo. Ainda que Marc Ferro afirme que “os filmes cuja ação é contemporânea da filmagem não constituem somente um testemunho sobre o imaginário da época em que foram feitos; eles também comportam elementos que têm um maior alcance, transmitindo até nós a imagem real do passado", nosso objetivo é, afastando-nos do que o autor nomeia de “imagem real do passado”, analisar como foi construída essa imagem por meio da análise interna do material audiovisual, sem perder de vista os elementos sociológicos e históricos envolvidos.
Bibliografia

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