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  Título
A redundância e o estatuto de verdade no docudrama Por toda minha vida
Autor
Débora Ferraz
Resumo Expandido
Esta comunicação pretende traçar, a partir da análise estilística do docudrama televisivo Por toda minha vida, exibido de 2006 a 2011 pela Rede Globo e suas diferenças em relação a outros docudramas televisivos, considerações sobre o diálogo entre os universos do documentário e da ficção. Neste sentido, a redundância intencional produzida na montagem e na relação entre os suportes dramatizados e documentais é um lócus privilegiado para empreender reflexões sobre questões extremamente pertinentes para a cultura audiovisual contemporânea, tais como o fetiche do real, seu valor de distinção para o consumo de entretenimento e a correlação entre o aparato estilístico de duas tradições que pressupõem diferentes pactos espectatoriais, na geração de efeitos discursivos, sob a luz da opacidade e transparência da câmera e da evidência como fundadora de um lastro de realidade.



Amparada em autores como Bill Nichols, Guy Guthier e Valerio Fuenzalida entre outros, e considerando enquanto redundância audiovisual não apenas a repetição desnecessária de uma mesma informação no quadro, mas em relação entre planos subsequentes. Em destaque, na análise empírica do programa, entra a dupla narração do mesmo evento através da atitude documentária e, em seguida, através da atitude ficcional.



Apesar de a repetição ser um recorrente efeito estilístico, especialmente ao se colocar como elemento de antecipação, quando observada sob a luz dos pactos espectatoriais e da pregnância que o plano impõe ao todo da peça audiovisual, podemos ver que a redundância, no docudrama, cumpre uma função que não é meramente estilística, mas sim um efeito de reconfiguração do pacto espectatorial que visa legitimar com a chancela de “realidade”, as cenas ficcionalizadas, e promover um efeito de realidade, usando o conceito de Barthes, mesmo quando a cena apresenta aspectos inverossímeis como maniqueísmo, simbolizações excessivas, cenários pouco críveis e diálogos vazios.



O pressuposto desta análise é que esta construção promove um tipo específico de “efeito do real”, e o obtém na sua construção audiovisual. Na maneira como as cenas-documentário se relacionam com as cenas-dramaturgia. Elas constroem um efeito de redundância constante ao ligar duas tradições estéticas diferentes e assim, na montagem, a peça audiovisual adquire o estatuto de verdade independente do quão maniqueísta a história seja. De modo que, legitimado pelo discurso do documentário, a parte dramatizada do programa passa a ter valor de uma reconstituição da realidade, e não como uma ficcionalização desta.



É possível reconhecer, já nos primeiros minutos de cada episódio, como as narrativas articulam este “efeito de realidade”, através da linguagem do documentário e das marcas estilísticas que os relacionem aos discursos do real, que reivindicam para si um lugar de legitimidade como “verdade”, como “história”, como “documento”, no docudrama.

Bibliografia

BALTAR, Mariana. Realidade lacrimosa: diálogos entre o universo do documentário e a imaginação melodramática. Tese (Doutorado). Universidade Federal Fluminense, Curso de Pós-Graduação em Comunicação, 2007.



BARTHES, Roland. The reality effect. In. BARTHES, R. The rustle of language. New York: Hill and Wang, 1986.



GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas, SP: Papirus, 2011.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas, SP: Papirus, 2005.



LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.



RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal...o que é mesmo documentário? São Paulo: editora Senac São Paulo, 2008.



_____________________. A imagem-câmera. Campinas, SP: Papirus, 2012.



XAVIER, Ismail, O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.