/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
do que escapa: corpos marginais em filmes de Pasolini
Autor
Daniela Duarte Dumaresq
Resumo Expandido
Proponho para esta apresentação analisar filmes de Píer Paolo Pasolini observando as formas de transgressão propostas por corpos indisciplinados que cercam a periferia de Roma ou periferias outras e imaginárias criadas pelo diretor italiano. Em seu primeiro filme, Accattone (1961), Pasolini volta sua câmera para a periferia de Roma para não mais contar histórias da resistência ou histórias marcadas pelo contexto da segunda grande guerra, temas abordados pelos mais importantes filmes italianos dos anos anteriores. Interessa a Pasolini um modo de viver outro, com suas maneiras, seus códigos, suas práticas. A câmera procura principalmente as histórias daqueles que estão às margens do sistema: desempregados, biscateiros, prostitutas, autônomos. Voluntária ou involuntariamente, essas personagens constituem-se como figuras de resistência. São das brechas do sistema que surgem seus modos de ser e estar no mundo: corpo e alma resistem a se enquadrar.



A história da formação de um corpo civilizado passa pelo controle dos gestos e movimentos (mesmo os involuntários) de forma a abrandar ou apagar os impulsos. O corpo passa a ser dominado pelos modos ensaiados, aprendidos desde a tenra infância em treinos diários. Os barulhos devem ser silenciados. Os odores devem ser neutralizados. Os desejos devem ser suavizados. Nega-se a natureza. Em seu lugar, apenas cultura. Herança da sociedade de corte, os modos corteses foram absorvidos “como se naturais”. O controle sobre si ultrapassa os limites do corpo e diz de um modo de viver as relações sociais e a vida em sociedade. O conceito de civilização



"expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo [...], resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’ [e, por fim,] procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais"(ELIAS, 1994, P. 23).



A proteção da vida civilizada constituiu-se na modernidade em um sistema que visa reproduzi-lo e garanti-lo. As instituições como escola e igreja garantem a educação corpórea. O sistema judiciário deve promover a limpeza social por meio da exclusão, da vida em sociedade, dos corpos desviantes. As técnicas urbanistas devem se submeter às leis de exclusão da construção das cidades, enviando para fora e para longe os corpos que incomodam.



Os corpos não respondem apenas às regras de sociabilidade. É preciso atender as demandas da economia. E “o corpo só se torna útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso” (FOUCAULT, 2013, p. 29). A construção desse corpo útil advém de um saber e um controle que Foucault chama de “tecnologia política do corpo”. Tecnologia difusa, impossível localizá-la: não se trata de uma instituição ou de um conjunto delas; não se trata de um discurso; não se trata de uma prática. “Trata-se de alguma maneira de uma microfísica do poder posta em jogo pelos aparelhos e instituições, mas cujo campo de validade se coloca de algum modo entre esses grandes funcionamentos e os próprios corpos com sua materialidade e suas forças.” (p. 29) Essa tecnologia se opera visivelmente sobre o corpo, no entanto é a alma que ela atinge com maior eficácia. Tal fato leva Foucault a inverter a fórmula conhecida e declarar: “a alma, prisão do corpo”! (p. 32).



O que me interessa para esta apresentação é retornar a filmografia de Pasolini e analisar como estas “almas que escapam”, que não são alcançadas por esta “tecnologia política do corpo”, como elas são construídas pelas imagens e narrativas fílmicas.

Bibliografia

AMOROSO, Maria Betânia. Píer Paolo Pasolini. São Paulo: Cosac e Naify, 2002.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Tradução de Augustin de Tugny, Oswaldo Teixeira e Ruben Caixeta. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008



ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.



FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2013.



NAZÁRIO, Luiz. Todos os corpos de Pasolini. São Paulo: Perspectiva, 2007.