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  Título
As disputas valorativas entre a crítica e o diretor Fernando Meirelles
Autor
Wanderley de Mattos Teixeira Neto
Resumo Expandido
A crítica e todos os possíveis discursos valorativos que ela convoca ao debate tem como um de seus propósitos o compartilhamento de "gostos" e "desgostos" dentro de uma comunidade de sentidos que valoriza cada vez mais a subjetividade na expressão de experiências estéticas, afirma Simon Frith (1996) em seus estudos sobre música popular. Tais transformações, como sugere Denilson Lopes (2003), acompanharam a própria Estética, cujos padrões clássicos, pautados na racionalidade, já não condizem mais com as produções de um contexto que valoriza a exteriorização dos "gostos" como forma de propiciar embates valorativos sobre produtos da cultura midiática.

Representante de uma crescente geração de cineastas latino-americanos que migram para pólos cinematográficos internacionais, Fernando Meirelles comunga com um projeto de cinema globalizado que tenciona essas relações, trazendo para as plateias narrativas que se contrapõem a tradições cinematográficas consagradas pela crítica. Além disso, Meirelles é um realizador aberto ao confronto de ideias através da constante exposição de seus pontos de vista em veículos de comunicação de massa, sobretudo durante o lançamento de Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira e 360, obras que provocaram intensos debates valorativos entre ele e a crítica.

A análise dos casos, portanto, teve como objetivo entender como os argumentos da instância de produção, representada pelo realizador através de discursos extraídos de reportagens, entrevistas e textos de sua própria autoria, se articularam com a crítica cinematográfica e disputaram a legitimidade de "fala", através dos "gostos", acerca da percepção das obras. De que maneira as instâncias valorativas se confrontaram? Que argumentos embasaram as suas respectivas valorações?

Ao todo, foram analisadas 19 críticas, de O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Variety e The Guardian, e 25 conteúdos com depoimentos do diretor, realizados ou veiculados e publicados na ocasião do lançamento das obras em circuito comercial brasileiro ou durante suas respectivas exibições em festivais internacionais de cinema. Trechos relativos a tópicos coincidentes de um mesmo filme nesses dois tipos de conteúdos de análise (críticas e depoimentos do diretor) foram cruzados e analisados à luz de discussões acerca da recepção estética em autores como Luigi Pareyson (2001), Monclar Valverde (2007), Gilles Deleuze e Félix Guattari (2010), Walter Benjamin (1994), dentre outros.

Ao longo da análise, percebe-se que algumas estratégias foram utilizadas pelas instâncias para se destacar nessa disputa, tais como: o tratamento do "cinema de entretenimento" e do "cinema de arte" como categorias opostas em um cenário "apocalíptico"; alegação da existência ou da falta dos atributos de originalidade e autenticidade nas obras; comparações com obras já consagradas; vinculação do êxito ao atendimento da normatividade interna do filme; alegações da ausência de profissionalismo, parâmetro de julgamento e ética profissional dos críticos; e solicitações de neutralidade da subjetividade nos discursos alheios em discursos claramente passionais.

Os resultados da análise, portanto, evidenciam a impossibilidade da neutralidade de qualquer aspecto relativo a subjetividade no relato de experiências estéticas da cultura midiática. Os confrontos estabelecidos entre Fernando Meirelles e a crítica reforçam a compreensão de que aspectos cognitivos e afetivos da relação sensível com a obra estão entrelaçados, relacionados de tal maneira que, como descreve John Dewey (2010), torna-se difícil distinguir um do outro. Assim, o raciocínio de que seja possível separá-los e administrá-los racionalmente é uma solicitação que nem o próprio criador dos filmes em questão, que clama por uma crítica estritamente "perceptiva", consegue atender a partir do momento em que se dispõe a participar de disputas valorativas.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. 7 ed., São Paulo: Brasiliense, 1994

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Percepto, afecto e conceito. In: O que é a filosofia?. 3 ed., Rio de Janeiro: Editora 34, 2010.

DEWEY, John. O desafio à filosofia. In: Arte como experiência. 1 ed., São Paulo: Martins Fontes, 2010

FRITH, Simon. The Value Problem in Cultural Studies. In: Performing Rites: On the value of Popular Music. Cambridge: Harvard University Press, 1996

LOPES, Denílson. Da experiência comunicacional ao sublime no banal. In: ADAMI, Antonio; CARDOSO, Haydée Dourado de Faria; HELLER, Barbara (org.). Mídia, cultura e comunicação 2. São Paulo: Arte & Ciência, 2003

PAREYSON, Luigi. Os Problemas da Estética. 3 ed., São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001

VALVERDE, Monclar. Estética da Comunicação: Sentido, forma e valor nas cenas da cultura. Salvador: Quarteto Editora, 2007.