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  Título
TRADIÇÃO DISCURSIVA DA SEPARAÇÃO E SUA FALÁCIA
Autor
Lia Bahia Cesário
Resumo Expandido
Nos anos 2000, ainda que não totalmente consolidada e pontuada por tensões, o discurso da circularidade e convergência inscreve-se cada vez mais na agenda da cultura audiovisual nacional. Se por lado o espaço audiovisual brasileiro se reconfigura, apoiado no sistema capitalista e na cultura do consumo, com características próprias do espírito do tempo contemporâneo, os estudos não podem ignorar que o espaço audiovisual nacional é herdeiro da circularidade cultural e artística.

O espaço audiovisual deslizou entre os diversos níveis de cultura em seus primeiros anos de formação, e fez circular repertórios, técnicas, referências, artistas, linguagens e até modelos comerciais de diversas áreas culturais. A formação do espaço audiovisual brasileiro, apesar da tradição discursiva da segregação, é própria da mediação entre repertórios cultura popular e de elite, e das articulações e fluxos entre as mais diversas linguagens para criar o moderno e massivo.

A mistura de repertório se expressava na construção de gêneros como o cinejornal e teleteatro que carregam no nome o entrelaçamento constitutivo e a ausência de pureza do cinema e televisão no Brasil. Cinema e televisão são herdeiros de um processo circular de repertórios, referências e profissionais.

A disputa distintiva, relegando ao cinema o lugar do culto e do artístico e à televisão o lugar do popular superficial e comercial, se iniciou nos anos 1960, com a expansão e especialização do mercado de bens culturais no país e se adensou nos anos posteriores, inviabilizando a colaboração e a integração institucional entre cinema e televisão no país. Neste momento, enquanto a televisão buscava se firmar como veículo popular, o movimento do Cinema Novo se fortalecia como arte revolucionária e transformadora. O movimento utilizava como recurso revolucionário e distintivo o diálogo com a literatura brasileira, campo cultural “hierarquicamente superior”. Este discurso acompanhou a historiografia do cinema e televisão no país até o final dos anos 1990. Com raras exceções, a circularidade, própria dos processos e práticas culturais, foi silenciada e despotencializada durante estes anos, no qual o discurso e a política preponderante estiveram alinhados com a distinção, a angústia da contaminação e o afastamento entre cinema e televisão.

Nos anos 2000 novas armas de lutas são acionadas para que o audiovisual nacional possa entrar, resistir e negociar no mercado global de bens simbólicos. A reorganização do espaço audiovisual brasileiro convive com a formação periférica brasileira e com as tendências e discursos globais de convergência cultural e tecnológica. A circularidade entre cinema e televisão, silenciada da narrativa da história do audiovisual durante décadas, é adensada e torna-se um valor incorporado, inclusive, pela política estatal.

O que era silenciado se revela como novidade potencializadora. O que parece novo é que agora essa prática se explicita nos anos 2000 como discurso positivo. São acionadas metodologias para integração e fortalecimento do espaço audiovisual brasileiro, tanto em âmbito privado quanto estatal.

A regulação do discurso através do Estado busca dar estabilidade à ordem da circularidade enquanto os agentes do mercado e esfera privada buscam reconstruir as práticas sociais circulares e híbridas. Como marcos institucionais, destaco, a criação da Globo Filmes e a Lei 12.485. O entrelaçamento e atravessamento das cadeias e circuitos produtivos, nos anos 2000, se tornam uma novidade apoiados e fomentados pelos discursos e ações das políticas públicas e privadas. Esta comunicação se propõe a lançar notas sobre a memória silenciosa da circularidade e entender as continuidades e novidades - discursivas e práticas - da relação entre cinema e televisão brasileira.

Bibliografia

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