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  Título
AUDIOVISUAL MILITANTE CONTEMPORÂNEO: UMA VISÃO GRAMSCIANA
Autor
Adil Giovanni Lepri
Resumo Expandido
O audiovisual pode ser uma poderosa ferramenta política e se estabelece como um meio acessível de comunicação, principalmente com os avanços tecnológicos e a consequente e relativa democratização dos aparelhos de gravação e edição de imagens em movimento. Nesse sentido, a partir da segunda metade dos anos 2000 o conceito de ciberativismo é definido, trazendo os acúmulos do cinema político que o antecedeu, mas operando de forma própria. O site de compartilhamento de vídeos You Tube, em relação com as redes sociais e no contexto da web 2.0, molda o cenário no qual esses audiovisuais de teor político e militante vão atuar em determinados períodos históricos. Nesse caso escolhemos por analisá-los no contexto das Jornadas de Junho de 2013, no Brasil, período em que ocorreram no país diversas manifestações de rua massivas.

Como balizador desta reflexão está o pensamento do marxista italiano Antonio Gramsci, e a leitura da pesquisadora estadunidense Marcia Landy de seu trabalho. De Gramsci buscamos utilizar alguns conceitos, como a noção de hegemonia, de guerra de posição, do intelectual orgânico e do senso comum. Estes conceitos estão aliados a uma leitura feita por Landy que os aplica de forma eficaz ao audiovisual.

A análise fílmica de dois exemplos com formas totalmente distintas revela não só heranças da tradição do documentário político latino-americano por um lado, mas também a articulação de códigos do horror cinematográfico e do cinegrafismo amador por outro. Enquanto a análise formal das obras demonstra claras diferenças entre elas, uma análise de conteúdo traz semelhanças no discurso, construído diferentemente em cada obra, uma que usa a linguagem cinematográfica mais conscientemente e outra que se aproxima mais de um testemunho, com menos intervenção pós filmagem e menor nível de consciência em sua produção.

Em oposição aos audiovisuais independentes militantes durante as Jornadas de Junho de 2013 estava a mídia corporativa. O telejornal diário, aproximando-se do senso comum o suficiente para ser compreensível, mas ao mesmo tempo se afastando dele o bastante para se colocar como voz de saber, sintetiza “verdades” sobre as manifestações, suas pautas e as ações policiais. Esta mesma mídia concede, de forma conjuntural, um aparente apoio às manifestações, tentando direcionar as pautas. Porém, em dado momento, de forma oportuna, os manifestantes, para ela, voltam a ser somente “vândalos” e radicais a serem reprimidos pelo Estado. Este discurso, hegemônico, se fragiliza de certa forma por diversos fatores. Entre eles se identificam os audiovisuais militantes e de teor político ou apenas testemunhais que produzem um discurso contra-hegemônico, ainda que desorganizado e errático. Nesse sentido, nos apoiamos em Gramsci e Landy, e entendemos os produtores destas obras como verdadeiros intelectuais orgânicos.

Para Landy as obras audiovisuais não podem ser lidas como agentes de mudança social por si só, são trincheiras em uma guerra de posição gramsciana, articuladas com um sistema de disputa da hegemonia junto a diversas outras movimentações. A partir desse mosaico de discursos e movimentos que atuam na disputa hegemônica acreditamos que pode se perceber uma síntese produzida no contexto de Junho de 2013: a questão da polícia militar como entrave para a consolidação da democracia no Brasil. Sendo articulado pelos movimentos sociais, organizados de forma tradicional ou não, esse discurso chega em um nível de solidez e capilaridade que acaba por “invadir” as páginas de publicações da grande mídia, mesmo que de forma tímida, e o parlamento na forma de um projeto de emenda constitucional. O verdadeiro desafio é transformar essas obras em ferramentas para um movimento orgânico, nos termos de Gramsci, que pode encontrar nelas aparelhos de difusão ideológica e registro histórico. A superação do espontaneísmo, seguindo o pensamento gramsciano, é fundamental para o sucesso dos movimentos que almejam a mudança.

Bibliografia

ALABAO, Nuria Vila. Videoactivismo 2.0: revueltas, producción audiovisual y cultura libre? In Revista TOMA UNO, Códoba: Depto. de Cine y TV, Universidad Nacional de Córdoba Argentina, 2012.

BACIN, Miro Luiz dos Santos. A fonte amadora na construção de realidades no telejornalismo. Tese de Doutorado - PUC-RS, Porto Alegre, 2006.

BURGESS, Jean e GREEN, Joshua. YouTube e a revolução digital: como o maior fenômeno da cultura participativa está transformando a mídia e a sociedade. São Paulo: Aleph, 2009.

GRAMSCI, Antonio e SACRISTÁN, Manuel(org). Antonio Gramsci: Antologia. Cidade do México: Siglo veinteuno editores, 1978.

LANDY, Marcia. Film, Politics, and Gramsci. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.

MORAES, Dênis de. O jornalista Antonio Gramsci. Blog da Ed. Boitempo.

TEDESCO, Marina Cavalcanti. Cinema e movimentos sociais: As estratégias audiovisuais do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Rio de Janeiro: Ed. Multifoco, 2011.