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  Título
Aquilo que fazemos com as nossas imagens: um filme-ensaio em diálogo
Autor
Fabio Camarneiro
Resumo Expandido
Exibido na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças” (2014), de Arthur Tuoto, é uma colagem de imagens encontradas na Internet sobre a circulação do capital – um leilão, pregões da bolsa de valores, anúncios publicitários em grandes centros urbanos –, e também sobre episódios de revolta, como um cartaz desfraldado sobre um painel com as cotações da bolsa de valores ou a depredação de uma agência bancária durante as manifestações populares ocorridas no Brasil em junho de 2013.

O filme de Tuoto está organizado sobre trechos da banda sonora de “France / tour / détour / deux / enfants” (1977-1978), série de TV de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville. Em “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças”, diferentes diálogos são ouvidos durante telas pretas com apenas legendas em português, exibidas no centro da tela. O tema central dessas conversas é a função da imagem no mundo contemporâneo, questão que norteava (e segue norteando) a obra do cineasta francês. A esse respeito, Philippe Dubois afirma que a opção de Godard pelo vídeo durante a década de 1970 parte da constatação de que “a televisão ganhou o combate das imagens, os meios de comunicação já não comunicam mais nada, a informação não circula mais, o sentido se perdeu, ler um jornal é algo da ordem da amnésia e da mentira, olhar uma imagem se tornou uma operação mecânica e um gesto de cego”. (2004: 291) A partir desse momento de impasse na obra do realizador franco-suíço, Dubois assinala a busca de “uma nova forma de escrita”, “a criação de um novo corpo de imagens – a videomixagem como instrumento de recomposição”.

Os objetivos de “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças” não estão distantes dos de “France / tour / détour / deux / enfants”. Em ambos, a opção pela “mixagem” tenta reconfigurar (ou, às vezes, “recuperar”) o significado das imagens apresentadas, colocando-as em choque com novas imagens e assim sucessivamente. A utilização da banda sonora da série de Godard não funciona apenas no sentido da homenagem ou do jogo de referências típico da pós-modernidade, mas como “citação” no sentido mais estrito: é como se o filme de Tuoto “abrisse aspas” para citar o realizador franco-suíço.

Diferentes autores, na tentativa de conceituar o filme-ensaio, sublinharam a presença de uma forte subjetividade. Arlindo Machado aponta, como características do ensaio, “a subjetividade do enfoque (explicitação do sujeito que fala), a eloquência da linguagem (preocupação com a expressividade do texto) e a liberdade do pensamento (concepção de escritura como criação, em vez de simples comunicação de ideias)”. (2006: 64) A partir dessas características, podemos pensar em “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças” como um filme-ensaio, mas com um reparo: ao invés de apenas uma subjetividade, temos duas: junto ao realizador brasileiro, há Godard; aquele sublinhando este.

As imagens do filme de Tuoto foram capturadas via Internet, uma ferramenta que, segundo Marcos Nobre, teve “importância decisiva” durante as revoltas de junho no Brasil. Segundo o autor, as redes sociais teriam servido, nesse contexto, como “espaços em que a própria opinião vai se construindo em diálogo e em contraste com outras”. (2013: 156) Não é outra a forma de construção do filme de Tuoto: um “diálogo” entre a realidade brasileira (e mundial) e o pensamento de Godard. Dessa maneira, “Aquilo que fazemos com as nossas desgraças” acrescenta outro elemento possível à definição do “filme-ensaio”, um elemento também comum à lógica das informações compartilhadas na Internet: a pluralidade de vozes na construção do conhecimento. Uma “mixagem” não apenas de imagens, mas de ideias. Dubois lembra que a opção de Godard pelo diálogo se aprofundaria em “Meeting W. A.” e “King Lear” (2004: 309). Diálogos não apenas verbais, mas também não-verbais: diálogos entre imagens.

Bibliografia

ADORNO, Theodor. “O ensaio como forma”. tradução: Jorge de Almeida. In: Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003. pp. 15-45. (Espírito Crítico)

AUMONT, Jacques. À quoi pensent les films. Paris: Seguier Editions, 1996.

BENSE, Max. “O ensaio e sua prosa”. Serrote, n. 16, mar. 2014.

CORRIGAN, Timothy. The Essay Film: from Montaigne, after Marker. New York: Oxford University Press, 2011.

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. tradução: Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004. (Cinema, Teatro e Modernidade; 7)

GOMES, Juliano. “Uma história só”. Revista Cinética, 5 fev. 2014. disponível em:

http://revistacinetica.com.br/home/aquilo-que-fazemos-com-as-nossas-desgracas-de-arthur-tuoto-brasil-2014/

MACHADO, Arlindo. “Filme-ensaio”. Revista Intermídias, ano 2, n. 5, 2006. pp. 63-75.

NOBRE, Marcos. Choque de democracia: razões da revolta. São Paulo: Breve Companhia, 2013.