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  Título
Urbanidades do cinema brasileiro contemporâneo
Autor
Vitor Zan
Resumo Expandido
1. A noção de território é aqui entendida como espaço empossado e transformado pelo Homem, pressupondo portanto uma história, a de sua ocupação, amiúde pautada por relações de poder. Entretanto, deve-se considerar, igualmente, que "não há território sem imaginário do território" (CORBOZ), o que anexa ao conceito uma dimensão representativa, fazendo do cinema um elemento importante em seu estudo.



Analogamente, a representação cinematográfica é simultaneamente testemunho de uma situação real, atrelada a um referente espacial, e construção, parcial, guiada pelo discurso visado.

Tendo em vista essa dupla inscrição, indicial e "imaginária", tanto do território quanto da representação cinematográfica, julga-se coerente que a análise do território no cinema lance mão de ambos aspectos, efetuando entre eles idas e vindas complementares.



Além desse primeiro posicionamento, que se aproxima da semiopragmática, resta saber em que medida se deve privilegiar o âmbito semiológico, restrito às características internas das obras, ou pragmático, incluindo elementos contextuais. Essa gradação pode oscilar em função de uma série de variantes, dentre as quais: o pacto narrativo do filme, seu regime de crença, ou mesmo as intenções do analista. Se uma perspectiva estética atribui maior autonomia ao universo fílmico, abordagens sociológicas ou históricas consideram mais detidamente os referentes representados. Traduzindo para a questão territorial, a primeira postura se ateria sobretudo ao território da imagem (ou do cinema): apresentação de um "local" sui generis; e a segunda ao território na imagem: representação de um local preexistente. O que aqui se defende é que, ao menos no seio dos estudos cinematográficos, essa dosagem se estabeleça prioritariamente em função das indicações dadas pelo próprio filme observado, com o intuito de harmonizar-se com a forma com que ele mesmo se situa nesse gradiente. Por isso, especificidades referenciais enriquecem mais a análise de filmes como A vizinhança do tigre e Avenida Brasília Formosa, que reivindicam seu caráter local, do que de outros que não o fazem, como O céu sobre os ombros ou Um lugar ao sol.



2. Seguem algumas considerações sobre os filmes analisados: A cidade é uma só?, de Adirley Queirós, constitui um contra-discurso urdido por um contra-espaço e uma contra-história, por sua vez balizados por experiências e memórias locais. Encena-se, simbolicamente, o Confronto entre Brasília e Ceilândia vaticinado por Carlos Drummond de Andrade. Suas armas são, muito embora, distintas da do poeta. A satélite, termo que pressupõe dependência e submissão, se emancipa e se insurge contra sua central, delineando uma estética própria, satelitária, mobilizadora de elementos populares próprios à Ceilândia.



Já em Um lugar ao sol, Gabriel Mascaro parte de um duplo recorte: social (vide o livreto apresentado no prólogo) e espacial, concentrando-se exclusivamente em coberturas. O filme denota o modo com que a pirâmide social e suas linhas de força se imprimem na própria forma da cidade. O ponto de vista da cobertura estetiza a urbe, tornando paisagístico um cenário essencialmente social. E diante da cidade-paisagem, nada se pode ver em detalhe, a dimensão humana perde sua escala, sendo essa uma das diversas formas de figuração da alienação, do isolamento e da insularidade reiteradas pelo filme. Entre voyeurismo e soberania, as coberturas de arranha-céus são afirmadas como panópticos da sociedade contemporânea.



3. O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho, caracteriza a rua como local de convivência, ou confrontação, de heterogêneos, onde porventura um faxineiro, como Dildu, ou um segurança, pode se deparar com uma das madames de Um lugar ao sol, ou mesmo com um senhor de engenho. A partir de apontamentos dessa ordem, busca-se extrapolar as fronteiras dos filmes com o intuito de testar a possibilidade e a pertinência de constituir territórios urbanos imaginários a partir de composições interfílmicas.

Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. Editora Record, 1984.

BAUDIN, Gérard ; BONNIN, Philippe. Faire territoire. Recherches, 2009.

CAMPOS GOUVÊA, Luiz Alberto. Brasília: a capital da segregação e do controle social: uma avaliação da Ação governamental na área da habitação. Annablume, 1995.

CORBOZ, André. Le territoire comme palimpseste et autres essais. Les éditions de l'Imprimeur, 2001.

JAWORSKI, Adam; THURLOW, Crispin (org.). Semiotic landscapes : language, image, space. Continuum international publishing group, 2010.

MAROT, Sébastien. L'art de la mémoire, le territoire et l'architecture. Éditions de la Villette, 2010.

MESQUITA, Cláudia. Um drama documentário? - atualidade e história em A cidade é uma só? In Devires, v. 8, n. 2, jul/dez 2011.

NAZARIO, Luiz (org.). A cidade imaginária. Perspectiva, 2005.

RICOEUR, Paul. Architecture e Narrativité. Revue Urbanisme, 44-51, 1998.

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