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  Título
Os agrupamentos na produção do "novíssimo" cinema brasileiro
Autor
maria carolina vasconcelos oliveira
Resumo Expandido
A comunicação baseia-se em minha tese de doutorado, cujo objeto é o jovem cinema independente brasileiro, que alguns autores denominam "novíssimo" cinema. Como ponto de partida, partilho com David James (1989) a ideia de que o "cinema" constitui-se não só como um conjunto de imagens e opções estéticas, mas como um conjunto de "práticas fílmicas" realizadas num certo modo de organização da produção. Ou seja, enxergo o cinema não só como um determinado “produto”, mas também como as práticas envolvidas em sua produção. Trata-se de uma perspectiva que também é cara à sociologia da cultura, especialmente à tradição francesa de Pierre Bourdieu, Nathalie Heinich, entre outros.

Aqui, focarei numa forma de organização da produção que se mostra bastante recorrente no cinema independente atual: os agrupamentos marcados por um menor grau de hierarquia e especialização e por uma lógica de funcionamento mais pessoal/afetiva do que profissional/racionalizada – às vezes denominados "coletivos". Observando casos brasileiros (grupos Alumbramento, de Fortaleza; Teia, de Belo Horizonte; Duas Mariola, do Rio de Janeiro; Trincheira, de Recife; e Filmes do Caixote, de São Paulo), analiso como os agrupamentos podem operar como estratégia de existência num campo como o do cinema brasileiro, em que predomina um pensamento industrial e moderno.

Primeiro, apresento brevemente a concepção de "cinema independente" que utilizo no trabalho, já que não há consenso para o uso do termo – caracterizo as produções culturais independentes ¬¬como aquelas que, em alguma medida, opõem-se em relação ao que seria um padrão de organização industrial/racionalizado da produção. Concebo "independente" como uma categoria relacional e heterogênea. Sendo relacional, ela se apresenta não como uma oposição binária, mas sim como um continuum de possibilidades (onde se é mais ou menos independente em relação a alguém ou algo, como propõe Howard Becker). E sendo heterogênea, ela é composta por várias dimensões como a do custo (um continuum que vai das produções mais baratas às mais caras), a da organização do trabalho (que vai do trabalho realizado em grupos colaborativos multifuncionais até o trabalho realizado em equipes grandes e altamente especializadas), a da estética (produções mais ou menos experimentais), entre outras. Desse modo, o conjunto de filmes considerados independentes podem ser bem diferentes entre si, já que eles podem ter posicionamentos diferentes em cada uma dessas dimensões.

Depois, entrando mais especificamente no tema da organização social da produção, procuro enquadrar os agrupamentos ou "coletivos" a partir dos achados de Raymond Williams (1992), que mostra uma associação histórica entre agrupamentos organizados de forma mais "frouxa" (menos institucionalizadas e formalizadas) e projetos estéticos que contestam padrões mais estabelecidos.

A partir daí, discorro sobre quatro características que se mostraram centrais, na pesquisa, para compreender o modo de funcionamento desses agrupamentos: a autonomia dos integrantes (que se opõe tanto ao modelo de dedicação exclusiva quanto ao do freelancer típico), a multifuncionalidade dos integrantes (que se opõe à especialização), a associação por afeto ou vocação (que se opõe à associação puramente profissional) e os compartilhamentos (principalmente de capital simbólico e político).

Busco, por fim, entender os agrupamentos como estratégias de existência, no sentido que eles possibilitam o compartilhamento de reputações (capital simbólico) e, sobretudo, de representações específicas que se diferenciam dos valores e práticas industriais que são mais típicos do campo. Nesse sentido, os agrupamentos, assim como outras instâncias conjuntas, propiciam uma dimensão coletiva que é fundamental para que a própria representação de "independência" exista para o mundo – como observa Nathalie Heinich (2005), até mesmo a singularidade e a marginalidade precisam se configurar como representações coletivas para poderem existir.
Bibliografia

BECKER, Howard (1963). Outsiders: estudos da sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar.

BOURDIEU, Pierre, 2002. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. 2a edição. São Paulo: Martins Fontes.

HEINICH, Nathalie (2005). L'Élite Artiste. Paris: Gallimard.

JAMES, David E. (1989). Allegories of cinema: american film in the sixties. EUA, Princeton University Press.

MENGER, Pierre Michel (2001). "Artists as workers: theoretical and methodological challenges". In: Poetics 28, pp. 241-254.

MIGLIORIN, Cezar (2012). "O que é um coletivo?" In: BRASIL, André, ROCHA, Marília e BORGES, Sérgio (orgs) (2012). Teia 2002-2012. Belo Horizonte: Teia, 2012.

WILLIAMS, Raymond (1999 [1980]). “ A fração Bloomsbury”. In: Revista Plural, 6, 1999, pp. 139-168. Tradução: Rubens de Oliveira Martins e Marta Cavalcante de Barros.

_______________ (1992). Cultura. Trad: Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra.