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  Título
Ver com olho de bicho: inscrições poéticas em uma democracia estendida
Autor
Luís Fernando Lira Barros Correia de Moura
Resumo Expandido
Em um momento em que acalorados debates prefiguram o colapso ambiental e os valores da modernidade são revisitados (para, tantas vezes, serem retorcidos), emergem tentativas de se restabelecerem contornos mais eficazes para a democracia, visando ao alastramento de um novo regime comum como horizonte de uma redistribuição política do mundo. Dois movimentos nos interessam aqui. Primeiramente, a constatação de que as histórias geológica e social se imiscuíram – sendo o agente humano ao mesmo tempo incidente feroz sobre a natureza e vítima de seu descortinamento espiritual, na figura amedrontadora de desequilíbrios e catástrofes –, e que portanto é urgente que nos voltemos para a natureza na tentativa de estabelecer sobre ela uma visada positiva (AVELAR, 2013) – afinal, o que ela é e o que ela pode? Mais radicalmente, faz-se necessário que inquiramos o quanto corpos não-humanos passariam a ser, para o domínio dos saberes aplicados, dignos de um estatuto de sujeitos e, uma vez sujeitos em sociedade, agentes efetivos de uma democracia estendida (LATOUR, 2004). Em segundo lugar, interessa-nos uma política estética, fundada na noção de que o comum (e seu sistema de trocas simbólicas e políticas) é incessantemente reconfigurado por uma partilha do sensível (RANCIÈRE, 2005) entre os implicados num determinado processo histórico – feito de coabitações, copresenças, copermanências em um universo de interlocuções temporais e espaciais. A contínua instauração desta política, se se dá notavelmente num regime de instituições próprio às manifestações artísticas, parece atuar incisivamente naquelas que concernem à promoção e à circulação de imagens, uma vez assoladas pelas tensões que as geminam a processos espetacularizantes.

O avizinhamento destes dois projetos, simultaneamente políticos e historicamente implicantes, parece amparar esboços de um outro, transversal a expressivos filmes contemporâneos bastante recentes, tais como Leviathan (2012), de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, As quatro voltas (2010), de Michelangelo Frammartino e Bestiário (2012), de Denis Côté. Por meio da presença coreográfica da câmera, tais trabalhos ensaiam estratégias de tradução poética de consciências não-humanas – e, consequentemente, efeitos inscritos nas demandas de uma política afim ao empreendimento de uma democracia por vir, restituída no sensível. É a câmera de Bestiário, à qual os homens permanecem impassíveis e que apenas os animais são capazes de encarar, hesitantes em responder à sua presença. Ora a observam misteriosamente; ora se confortam em meio às sucessivas invasões ou copermanências, como se a câmera fosse também bicho; ora (e nestes momentos nos contamina um desconforto particular) parecem tentar escapar desesperados de sua visita, como se ela lhes fosse predar. Ou o olhar que segue e se deixa afetar pelas cabras em As quatro voltas, antes cercadas num cativeiro que divide a imagem ao meio, em dois mundos: do lado dos caprinos, a natureza prosaica; do outro, a vila habitada por homens. Os quadrúpedes vão romper a barreira e invadir a cidade e as casas, mas apenas depois que uma procissão vestida de adereços cênicos refunde a espectatorialidade do espaço compartilhado: rua vira palco, cativeiro vira plateia – de fato, as cabras os estão olhando. A rigor, é efetivamente emprestar o olhar que instaura o espectro fílmico o que a equipe de Leviathan arrisca: ao filmar um navio de pesca, em que os trabalhadores encarnam corpos tão automatizados quanto as máquinas, dezenas de câmeras são acopladas não só a superfícies de embarcação e maquinaria, mas também a pássaros e peixes que se debatem até a morte. São casos de uma câmera enfática que instala e mobiliza poéticas não-humanas – age, portanto, no cerne de uma política estética fundada no horizonte possível de um comum intercósmico, capaz de visar e acolher reciprocidades e cisões entre os estados relacionais de ser humano e ser bicho.

Bibliografia

AVELAR, Idelber. Amerindian perspectivism and non-human rights. In: Revista Alter/nativas. Athens, n. 1, setembro/dezembro 2013.

BERGER, John. Why look at animals? In: About looking. New York: Pantheon, 1980.

BRASIL, André. O olho do mito: perspectivismo em Histórias de Mawary. In: Revista Eco-Pós. Rio de Janeiro, v. 15, n. 3, setembro/dezembro 2012.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

______. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Bauru (SP): Edusc, 2004.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosacnaify, 2002.