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  Título
O som do fim do mundo: uma análise do sound design do filme Melancolia
Autor
Filipe Barros Beltrão
Resumo Expandido
No cinema contemporâneo, umas das áreas de maior expansão tem sido o design de som, que vem se mostrando como um terreno fértil para criação e experimentação estética, bem como para a análise cinematográfica. Em alguns casos específicos, o sound designer tem o desafio de criar universos sonoros que fogem às experiências habituais do cotidiano, reproduzindo situações hipotéticas nas quais não existe um referencial concreto para dar materialidade às imagens apresentadas na tela. Podemos citar as obras da a ficção científica, gênero propício à criação de mundo imagináveis, seres inexistentes, ou contextos geográficos não acessíveis à experiência humana. A criação do desenho de som neste contexto exige criatividade (OPOLSKI, 2013) para conseguir criar a “ilusão na relação som-imagem” necessária para existir o “contrato audiovisual” (CHION, 2011). O filme Melancholia (Lars Von Trier, 2001) aborda como enredo o tema do fim do mundo, a partir de uma colisão entre o Planeta Terra e um planeta chamado Melancholia. Melancholia se divide em dois momentos intitulados Justine e Claire. Os nomes são uma referência aos personagens interpretados por Kristin Dunst e Charlotte Gainsbourg, respectivamente. A primeira parte retrata a fracassada cerimônia de casamento de Justine e Michael (Alexander Skarsgard), abordando uma série de nuances da relações familiares e afetivas da família de Justine. Neste primeiro momento, os personagens não têm a informação que o mundo vai acabar e um clima sombrio e distópico paira sobre a narrativa. Na segunda parte, o centro da narrativa é direcionado para a personagem Claire, que tenta ajudar a sua irmã abalada por um forte estado depressivo, enquanto vivencia um medo pungente do possível fim do mundo pelo choque da Terra com o planeta Melancholia. O sound design é assinado por Kristian Eidnes Andersen, que assinou também o mais recente Ninfomaníaca: Volume 1 e 2 (2013), além de Anticristo (2009) e a supervisão de som em Dogville (2003). A obra apresenta um grande trabalho de dinâmica sonora, na qual os sons variam de intensidade mínima a momentos de forte pressão (KERINS, 2011). O som do fim do mundo criado pelo Lars Von Trier e Kristian Eidnes Andersen é marcado pela presença da música de Richard Wagner, que permeia momentos importantes da narrativa fílmica. A trilha musical é criada a partir da ópera Tristan e Isolde, do compositor alemão, que também contém um rico trabalho dinâmico com melodias polifônicas e dissonâncias que oscilam entre uma ar romântico e delicado, passando por momentos com místicos e etéreos, outros sombrios dando um ar denso e melancólico, a ápices com sons intensos e ataques rompantes que transmitem um sentimento apocalípctico. Na apresentação, destacaremos a sequência inicial e final do filme, onde são criadas a representações mais concretas para o fim do mundo. A primeira sequência funciona como um prelúdio, antes da entrada do título do filme. A sequência apresenta vários planos em super slow motion mostrando o ambiente visual do filme, apenas com a trilha musical de Wagner. Durante toda a sequência, a banda sonora não apresenta nenhum efeito sonoro ou diálogo, fazendo que a música influencie diretamente na construção de sentido da cena (GORBMAN, 1987). A sequência inicia com uma paisagem diurna e finaliza com uma tomadas noturna, alternando inicialmente do clima romântico para um ápice dramático na colisão do Melancholia com a Terra. Nesta primeiro momento de análise, podemos constatar uma utilização clássica do som, onde a música se apresenta como elemento dramático e predominante na interpretação das imagens. A sequência final retoma o primeiro momento do filme, porém juntamente à música, temos a inserção do efeito sonoro na composição da trilha. O desfecho apresenta a dissolução das pessoas a partir do choque da Terra com o planeta Melancholia. A inserção dos sons que evocam destruição intensifica a emoção da trilha, criando um ambiente hiper-realista (COSTA, 2011).
Bibliografia

CASTANHEIRA, José Cláudio Siqueira . A paisagem sonora eletrônica: a reconstrução do mundo sonoro contemporâneo no cinema. Revista Contemporânea, v. 6, p. 2-14, 2008.

COSTA, Fernando Morais. Pode-se dizer que há algo como um hiper-realismo sonoro no cinema argentino?. Ciberlegenda, n. 24, v.1, p.84 - 90, 2011.

CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011.

GORBMAN, Claudia. Unheard melodies: narrative film music. Blommington: Indiana University Press, 1987.

KERINS, Mark. Beyond Dolby (Stereo): cinema in the digital sound age. Bloomington: Indiana University Press, 2011.

MILICEVIC, Mladen. Film Sound Beyond Reality: subjective sound in narrative cinema. Loyola Marymount University. Los Angeles, sem data. Disponível em: .

OPOLSKI, Débora. Introdução ao desenho de som: uma sistematização aplicada na análise do longa-metragem Ensaio sobre a cegueira. João Pessoa: Editora UFPB, 2013.