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  Título
Pensar o melodrama em dupla perspectiva: política e normativa.
Autor
Dilma Beatriz Rocha Juliano
Resumo Expandido
Pretende-se discutir as perspectivas política e normativa do uso melodramático a partir das telenovelas, de diferentes épocas e horários de exibição, ambas da Rede Globo de Televisão, Duas Caras, 2007/08, novela de Agnaldo Silva; e, Lado a Lado, 2012/13, novela de Claudia Lage e João Ximenes Braga, analisando mais especificamente nas sequências finais dessas narrativas televisivas.

O melodrama aparece como uma hipótese de resposta à pergunta do que há nas telenovelas que as fazem tão populares? Os índices melodramáticos mais significativos da cultura das massas podem ser identificados nos finais das telenovelas. A forma do melodrama, no momento final das narrativas, pode atender tanto à encomenda do mercado, e na tentativa de os autores melhor corresponderem a expectativa patronal, quanto fazer superexposição de sentidos, mostrando a artificialidade da felicidade para sempre. Nos dois sentidos, o melodrama corresponderia à exuberância realçada nas sociedades do espetáculo.

“Retórica do excesso”, nas palavras de Jesús Martin-Barbero e Sonia Muñoz, é o que melhor caracteriza os usos melodramáticos. As supersensações dramáticas sobre as quais se apoiam as narrativas televisivas requerem olhar mais cuidadoso do que faz crer o açucarado das cenas.

O suporte melodramático sobre o qual se apoiam as narrativas das telenovelas, muito embora seja amplamente utilizado para fins apaziguadores, requer olhar profundo e atento, pois é o melodrama que escapa das dobras estritamente históricas que se sobrepõem às trocas de uma produção orgânica a uma produção maquínica – o melodrama resiste nesta passagem de um estado a outro.

Não é possível negar que o mecanismo de prazer/gozo, que se sustenta pelo consumo, promete liberdade paradoxalmente vinculada à dependência, à adesão ao vício anestésico, característico de uma sociedade capitalista industrial, que, como a nossa, é refém da repetição “infernal” da história – aí o caráter ideológico dos finais felizes das telenovelas, a repetição; a circularidade da ideia de felicidade prometida, que apreende os telespectadores porque satisfaz pelo espetáculo das imagens.

Por outro lado, as telenovelas, ao mostrarem as imagens e sons que transbordam dos modos/modas civilizatórios de controle sensorial através do melodrama, trazem de volta as fantasmagorias com as quais o telespectador pode se reconhecer. Ou seja, as telenovelas são capazes de fazer o sujeito retomar aquilo que de si fora alijado pelas ideologias totalitárias da ordem capitalista, com as quais tem convivido desde a colonização. A “noção de despesa”, enunciada por George Bataille como forma improdutiva da perda, atribui excessos tanto à capacidade de escapar das malhas fetichistas da ideologia capitalista, quando, ao se manterem inacessíveis às regras de produção de lucro financeiro, relembrar o sujeito da existência de sua dimensão interior. Assim, o melodrama é gênero usado nas narrativas televisivas para operar a tradução da cultura massiva, mas, num desdobramento da superfície, pode escapar da lógica da mercadoria esbanjando sensações entorpecidas no cotidiano das massas.

Bibliografia

BATAILLE, Georges. A parte maldita: precedida de A noção de despesa. Rio de Janeiro : Imago, 1975.

BROOKS, Peter. The melodramatic imagination: Balzac, Henry James, melodrama and the mode of excesso. New York: Columbia University Press, 1985.

COSTA, Cristiane. Eu compro essa mulher. Romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

HUPPES, Ivete. Melodrama: o gênero e sua permanência. São Paulo: Ateliê Editoral, 2000.

JULIANO, Dilma Beatriz Rocha. Telenovelas brasileiras: narrativas alegóricas da indústria cultural. Tese de Doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2003.

MARTÍN-BARBERO, Jesús; MUÑOZ, Sonia. Televisión y melodrama. Géneros y lecturas de la telenovela en Colombia. Bogotá, Colombia: Tercer mundo editores, 1992.

THOMASSEAU, Jean-Marie. O melodrama. São Paulo: Perspectiva, 2005.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.