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  Título
O olhar que vagueia no mundo: decifrando o cinema de fluxo
Autor
Raquel do Monte Silva
Resumo Expandido
A seguinte proposta pretende compreender a partir de uma ideia de cinema de fluxo, denominação de uma escritura fílmica que abandona a racionalização das formas no mundo e as identidades fixas, como filmes sublinhados sob esta esteticidade promovem uma experiência estética singular e ressignificadora. Descartando qualquer tentativa de apreensão intelectual, a poética que nasce no contexto de maleabilidade indica a construção de uma imagética que se alimenta da duração, pois o inscrito nessa experiência possibilita a imersão em um universo no qual um olho errante vagueia no espaço entre de um estado temporal rarefeito, formado por uma superfície lisa em que vários fios intencionais são emaranhados e nisso a prerrogativa do sentido escapa, pois já não há o desejo de substantivar ou impor um sentido ao mundo, e sim, o que existe é um mergulho no presente assignificante, mas absoluto por natureza. “O cinema de fluxo renuncia a consciência ligante, à identidade, à síntese em prol da “rapsódia de percepções” da flutuação generalizada, da filmagem bruta do escoamento do real” (Bouquet, 2002, p.47). Sendo assim, filmes brasileiro contemporâneos, como Viajo porque preciso, volto porque te amo (BRA, 2010), O Céu de Suely (BRA 2006), Eles voltam (BRA, 2011), por exemplo, nos auxiliarão a compreender uma experiência estética na qual espaço e corpo se entrecruzam permanentemente, produzem paisagens, ressignificam percepções e estares no mundo. Sendo assim, ao nos relacionar com os filmes vamos ser conduzidos por um método de apreensão que tenta mergulhar no material imagético considerando o modo como ele nos afeta e provoca em nós uma memória afetiva no qual a visão de uma atmosfera em movimento viabilizada por meio de planos que enunciam eventos cinemáticos do mundo. Considerando como ponto de partida para a nossa análise um certo espírito cinéfilo que busca apontar aspectos narratológicos e efeitos afetivos desencadeados pelas obras. É assim que nos deparamos com obras que costuram as trajetórias existenciais de José Renato (Viajo), Suely/Hermila (O céu de Suely), Gerry, Cris (Eles voltam). É assim que tentamos apontar nestas obras recorrências de ordem estética que decodificam um fenômeno criador, constituindo-se como elemento chave para a compreensão de uma forma fílmica batizada como fluxo.

O conceito de cinema de fluxo com o qual dialogamos parte da reflexão apresentada pelo escritor e crítico do Cahiers du Cinéma Stéphane Bouquet em dois artigos – Les flux sans visage e Plan contre flux – publicados em março e junho, respectivamente. Conforme atesta o pesquisador Luiz Carlos de Oliveira Jr., o corpo de filmes que alinhavam o campo sensível costurado pelo conceito refere-se não há um estilo ou traço, mas um comportamento do olhar que desafia as noções tradicionais de mise en scène. Para nós, afastando-nos um pouco das discussões sobre encenação, o bloco de afetos inscrito nestas produções, que passa por filmes distintos pertencentes a cinematografias múltiplas, incluindo produções de Gus van Sant, Theo Angelopoulos, Win Wenders, Abbas Kiarostami, Claire Denis, Cao Guimarães, Karin Aïnouz, Marcelo Lordello, Marcelo Gomes, entre tantos, designa uma possibilidade de vivenciar uma experiência estética singular surgida no encontro com um fenômeno de natureza fílmica que produz a ressignificação de um processo existencial.

Bibliografia

BOUQUET, Sthephane. (2002ª). Les flux sans visage. Cahiers du Cinéma, n.569, jun.

____________________(2002 b). Plan contre flux. . Cahiers du Cinéma, n.566, mar.

DELEUZE, Gilles. A Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense. 1995.

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. O que é filosofia? São Paulo: Editora 34. 2010.

MERLEAU-PONTY. Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2011.OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: Do clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013. (Coleção Campo imagético)